Angola a maioria do povo está a ficar mais pobre

Angola: a maioria do povo
está a ficar mais pobre
Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em
2002, Angola tem tido um crescimento económico sem precedentes. já ultrapassou a
Nigéria como maior produtor de petróleo em África e é o quinto maior exportador de
diamantes do mundo. Mas, apesar de ter a economia em rápida expansão, dois terços da
sua população continua a viver com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco
Mundial.
Por Louise Redvers, de Luanda para a IPS
Um motorista conduz um reluzente BMW com tracção às 4 rodas, saindo
de um condomínio fechado e transportando uma executiva elegantemente vestida e os três
filhos fardados, numa manhã como todas as outras na capital angolana, Luanda.
Ao deixar o seu escritório com ar condicionado para almoçar, a nossa
executiva vai pagar 100 dólares pela sua refeição num café na marginal e gastar 300
dólares, sem qualquer problema, num pequeno número de produtos alimentares importados
adquiridos numa luxuosa mercearia.
A poucas milhas de distância, uma outra mulher está sentada na berma
de uma estrada poeirenta, uma entre muitas que vendem latas amolgadas com óleo de palma e
tomates pisados. Estas mulheres sentam-se no chão ou em cima de baldes de plástico
virados ao contrário, a poucos metros de uma vala cheia de lixo putrefacto.
Sem prestar atenção ao cheiro nauseabundo e aos enxames de moscas,
ela faz tranças no cabelo de outra mulher e vê os filhos subnutridos a brincar em poças
de lama perto dali. Ambas estas mulheres são angolanas, mas nunca se irão encontrar, e
será pouco provável que alguma vez compreendam as realidades opostas uma da outra.


Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em 2002, o
país tem gozado de um crescimento económico sem precedentes - com um crescimento médio
anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 15 por cento - graças aos elevados preços do
petróleo e a milhares de milhões de dólares de investimento estrangeiro, especialmente
na construção.
Produzindo aproximadamente 1.8 milhões de barris de petróleo por dia,
Angola já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo em África e quinto
maior exportador de diamantes do mundo.
Mas, enquanto o país conquista o reconhecimento internacional pela sua
economia em rápida expansão, dois terços da sua população continua a viver com menos
de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.
O Centro de Estudos e Investigação Científica (conhecido pela sua
sigla em português, CEIC) da Universidade Católica de Angola ter registado uma taxa de
desemprego da ordem dos 25%, mas refere que mais de metade da população está dependente
do sector informal para gerar rendimento e que, nas zonas rurais, a maioria da população
continua dependente da agricultura de subsistência.
Não há empregos
A expansão do sector petrolífero em Angola trouxe milhões de
dólares aos cofres do Estado, mas criou muito poucos postos de trabalho, e os milhares de
projectos de construção em todo o país - sinal de que o país está em reconstrução
depois de muitos anos de guerra - usam principalmente trabalhadores provenientes da China
e de outros países asiáticos. Em resultado, poucos angolanos têm beneficiado destas
oportunidades de trabalho.
Segundo Alcides Sakala, porta-voz do principal partido da oposição em
Angola, a UNITA (União para a Independência Total de Angola), o fosso entre aqueles que
têm e os que nada têm continua a aumentar. "O que vemos é que uma pequena minoria
de pessoas fica mais rica enquanto que a maioria do povo está a ficar cada vez mais
pobre," disse à IPS.

Alcides Sakala (foto Net)
O fosso entre ricos e pobres é evidente por todo o lado, especialmente
em Luanda, onde mendigos deambulam perto dos apartamentos no centro da cidade com
rendimentos que podem elevar-se a mais de 25.000 dólares por mês, e onde as vítimas de
minas ajudam os motoristas a parar os seus Veículos Utilitários Desportivos (SUV)
excessivamente grandes, na esperança de ganhar alguns tostões para comprar uma
refeição no fim do dia.
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas
(IDH) - que mede a riqueza, educação e esperança de vida dos cidadãos - Angola mostra
poucos sinais de melhoria, apesar da sua riqueza petrolífera.
O Índice começa no zero, que significa desenvolvimento humano nulo, e
acaba no um, que significa pleno desenvolvimento humano.
Na última contagem, o IDH de Angola era 0.484, comparado com 0.670 na
África do Sul, 0.664 no Botswana e uma média de 0,541 em todos os países da Comunidade
de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Embora haja dinheiro suficiente no país para construir hospitais
privados para aqueles que podem pagar as respectivas tarifas, a maioria dos angolanos tem
dificuldade de ter acesso até mesmo a cuidados de saúde básica, com falta de pessoal
qualificado e de infra-estruturas, especialmente nas zonas rurais.

E,apesar de as escolas privadas cobrarem propinas astronómicas para
educar os filhos da elite, um terço das crianças do país está fora do sistema escolar.
Muitas ficam em casa para trabalhar e ajudar as suas famílias.
Douglas Steinberg, director da organização Save The Children em
Angola, explica: "Existe um enorme fosso entre os ricos e os pobres aqui, e muitas
pessoas não estão realmente cientes da enorme riqueza de Angola. As pessoas que vivem
nas zonas rurais ou nas zonas centrais do país não vêem as plataformas petrolíferas offshore,
não sabem qual é a enorme quantidade de dinheiro existente nem vêem as novas
construções nem os carros com preços exorbitantes nem os restaurantes caros."
"Penso que isto faz parte do problema - se as pessoas não sabem
como o país é rico, é mais difícil exigirem responsabilidades do governo a nível de
como este gasta o dinheiro," acrescentou.
No seu Relatório Económico para 2008, o CEIC apontou a contínua
existência de pobreza, um contraste directo com a crescente riqueza do país.
"O PIB aumentou cinco vezes entre 2003 e 2008 - de 959 para 4961
dólares em 2008," refere o relatório. "Mas, apesar disso, a grande maioria da
população continua a viver num estado de pobreza permanente, sendo obrigada a sobreviver
com pouco mais de dois dólares por dia."
O fosso aumenta
A irmã Domingas Loureiro dirige uma instituição de caridade que
ajuda famílias pobres no sobrelotado bairro do Cazenga, um labirinto de casas construidas
pela população, sem electricidade e com acesso reduzido a água e saneamento.
"As pessoas aqui lutam para sobreviver, e muitas crianças são
forçadas a trabalhar a partir de uma tenra idade. A realidade da vida e o elevado nível
de pobreza nestes bairros não é uma situação que o governo conheça em
profundidade," disse.
No entanto, o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, afirma
conhecer a pobreza no seu país. Em Março, durante um discurso que proferiu ao lado do
Papa Bento XVI, Eduardo dos Santos, há trinta anos no poder, reconheceu os "desafios
tremendos" que o país enfrenta para reduzir a pobreza e o desemprego, e prometeu um
investimento contínuo para resolver estes problemas.
Durante a visita da Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hilary
Clinton, que esteve em Angola em Agosto, o ministro das Relações Exteriores, Assunção
dos Anjos, foi solicitado por um repórter do Washington Post a explicar como é
que o maior produtor de petróleo em África tinha uma pontuação tão baixa em termos do
IDH.
O ministro respondeu dizendo: "Dêem-nos tempo para resolver este
problema. Temos mecanismos, temos vontade e temos as estruturas para podermos garantir ao
nosso povo que pode viver em condições dignas. Infelizmente, a pobreza não pode ser
resolvida com uma varinha mágica."
Para os cerca de cinco milhões de angolanos que vivem nos bairros de lata de Luanda, uma varinha mágica pode parecer a sua
única esperança.
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