HISTÓRIA DE ANGOLA
INTRODUÇÃO
A vida e a história de qualquer país começam com o conhecimento da
história cultural do seu povo. Assim é para quem investiga os problemas complexos da
jovem nação angolana, que está, na atualidade, perante o seu maior desafio como país
independente. São muitas as questões enfrentadas, entre elas a de estabilizar a
economia, pacificar os espíritos marcados por mais de trinta anos de guerra civil,
encontrar os rumos da democracia norteada pelas reformas sociais para diminuir o estado de
pobreza absoluta que tem assolado todo o país, melhorar suas péssimas condições
sanitárias e ambientais.
Entre todas as dificuldades a maior delas está em instituir um ponto
final na situação político-militar do país. Sem capacidade para resolução destas
variáveis estruturais, o povo angolano segue a sua trajetória histórica marcada por
longos retrocessos e pouquíssimos avanços na sua afirmação como nação soberana.
A presente dissertação teve origem no trabalho que realizamos naquele
país, como voluntário das Nações Unidas, durante os anos 1995 a 1997. Angola
encontra-se atualmente com péssimos índices sanitários, conseqüência dos longos
conflitos bélicos ocorridos no país. Para melhorar esses índices foi desenhado o
Projeto de Reabilitação Urbana e Ambiental de Lobito e Benguela, com o objetivo de dar
estrutura sanitária e ambiental às duas cidades que, em função do Porto de Lobito,
desempenham papel importante de corredor de exportação para os países vizinhos e toda a
porção central de Angola.
Financiado por: Banco Mundial, Agência Sueca de Desenvolvimento,
Agência Norueguesa de Desenvolvimento e Governo Angolano, o Projeto saiu do papel
trabalhando com comunidades e beneficiando os mais carentes da Província de Benguela.
Nosso objetivo nesta dissertação foi descrever e analisar o projeto,
uma vez que ele apresenta aspectos inovadores: financia diretamente as ações do poder
local e da comunidade sem interferência do Governo Central; privilegia tecnologias e
ações de baixo custo; forma recursos humanos nas comunidades locais.
Uma avaliação de seus resultados pareceu-nos importante para
identificar seu potencial de reprodução em outras regiões africanas.
Para melhor entendimento do projeto, consideramos necessário descrever
primeiramente o contexto histórico, geográfico e sócio econômico em que ele se
desenvolve. Desse modo, no Capítulo 1 dissertamos sobre a história de Angola. (...)
CAPÍTULO 1 - CONTEXTO HISTÓRICO
A FORMAÇÃO TERRITORIAL E A DIVERSIDADE ÉTNICA NA CONQUISTA COLONIAL
"Terra Gigante/terra Grande Gigante/De Queimadas sem fim/terra
Quente de mulatas/D’um Bronze-chocolate/É de negras Que Remexem/Ao som do
Batuque/Nas noites Quentes de Luar". (Rasgado,1996:11)
A República de Angola é, depois do Congo (Ex-Zaire), a maior nação
ao sul do Saara. Com uma área de 1.246.700 Km2, foi durante quinhentos anos uma grande
colônia portuguesa. Angola está situada na costa ocidental da África, em frente ao
Brasil e tem fronteiras ao norte com a República Popular do Congo; a nordeste, com a
República Democrática do Congo ou Ex-Zaire; a leste com a Zâmbia; e ao sul, com a
Namíbia.
O território tem um comprimento máximo de 1.277 Km no sentido
norte/sul e 1.236 Km de leste a oeste. Em fronteira marítima tem 1.680 Km e terrestre
4.928 Km.
A formação étnica de Angola iniciou-se a partir da migração dos
bantos, povos que falam as línguas bantu, comum na África Oriental, Central e Meridional
cujo termo singular é muntu, que significa "homem", "pessoa". Segundo
o historiador Ralph Delgado, em 1482, quando os portugueses chegaram ao estuário do Rio
Congo, os povos bantos já se encontravam ali em diversos reinos. Segundo Vansina
(1985:556), "a expansão das línguas bantu pode refletir a ocorrência de grandes
migrações que terminaram bem antes do ano 1100".
No entanto, a história desta população primitiva da África Negra
só começou a ser decifrada a partir do século XIX, quando o mapa do continente negro
foi discutido intensamente na Conferência de Berlim de 1884.
De acordo com os etnólogos especialistas em África, a etnia Banto,
compreendia vários grupos como: Bakongos, Lunda-Cokwel, Mbundu, Ovimbundu, Ambós e
outros pequenos subgrupos, que se expandiram pela África a partir da zona equatorial.
A penetração dos portugueses nos seus territórios teve início no
reino dos bakongos, atual Zaire, província de Angola ao norte do país. Dentro da visão
expansionista dos portugueses já havia uma consciência de que a conquista deste
território não seria fácil, porque os bakongos, antes da chegada do colonizador, já
dominavam técnicas da metalurgia, transformando ferro em instrumentos de guerra,
conseguindo assim hegemonia territorial sobre os outros reinos próximos ao seu Estado.
Em volta do reino bakongo havia outros Estados menores. Em virtude da
distância do centro, eram considerados independentes teoricamente, na prática
respeitavam a supremacia do "manicongo". (Manicongo: o mesmo que reino do Congo.
Compreendia Matamba e Angola).
"Entre estes reinos distantes destaque para três: Ngoyo; Kakongo
e Luango na costa do Atlântico a norte do estuário do Congo, área conhecida como
Matamba atravessado pelo vale do Cuango a sudeste, e a região de Ndongo, que incluía
quase toda a parte central de Angola, de ambos os lados do Rio Kuanza. Quando houve os
primeiros contatos com os portugueses, o mais importante dos muitos pequenos chefes da
região de Ndongo era um que possuía o título hereditário de Ngola, que os
colonizadores deturparam dando mais tarde o nome de Angola à Colonia" (Oliver.
R. E. Fage, 1980:139).
Em 3 de maio de 1560, o navegador português Paulo Dias Novaes chegou
à barra do Cuanza, apesar de Diogo Cão ter sido o descobridor. A ocupação Lusa em
Angola se deu efetivamente no século XVI. Favorecido pela diversidade étnica dos Bantos,
Paulo Dias Novaes iniciou sussessivas guerras contra os sobas que resistiam à ocupação.
Segundo historiadores "do ano de 1579 até hoje, Angola não teve mais do que 20
anos consecutivos de paz" (Folha de São Paulo, 1996:1-12). Apesar da
resistência, o avanço do colonizador era incontestável, pois era uma luta extremamente
desigual, valendo apenas a bravura daqueles pioneiros na batalha contra a expansão
ultra-marítima. Um outro lado a considerar é que diversidade não cria unidade, desta
forma a estratégia utilizada pelo colonizador foi de criar desentendimento entre as
diferentes etnias, apoiados por outros reinos de seu interesse.
"Às surriadas de tiros das armas européias e luso-angolanas,
ripostavam verdadeiros chuvadas de flechas e pedradas nustras, despedidas pelos
indígenas. Por fim, a defesa cedeu, caindo na mão do exército grande número de
prisioneiros, entre os quais Ngunza-a-Mbambe e seus macotas, imediatamente degolados, com
muitos companheiros. Estava-se em 9 de agosto de 1679. Enterrados os mortos, tratados os
feridos e restaurados as forças dos sobreviventes, Luis Lopes de Sequeira prosseguiu a
rota determinada pelo regimento, isto é, deslocou em direção ao "Sobado"
(provém de Soba – autoridade tradicional de um lugar, chefe de tribo africana), de
Quitequi Cabenguela, causador da mobilização. Pelo caminho avassalou matumbo-a-Hoji e
Catuculo Caquariongo, sobas poderosos, o primeiro dos quais reforçou o exército com seus
homens de arco.
Findas oito jornadas de marcha, a coluna alcançou um morro elevado, em
cujas cumiadas se sobrepunha a senzala principal de Ngola Quitumba, importante chefe negro
da região, e fez alto neste ponto; e vindo a saber, depois que se encontrava ali
refugiado Quitequi Cabenguela, o grande adversário a combater, abriu trincheiras e tomou
todas as medidas para conquistar a difícil posição" (Delgado,1955:30).
A luta do povo angolano do ponto de vista da resistência representou o
início de um ensaio da libertação política, já que as determinações da coroa
portuguesa eram explicitas em direção a futura expansão territorial.
Durante os anos que Paulo Novaes passou nas terras angolanas, pôde ver
bem em que condições poderia fazer a ocupação e a colonização portuguesa. Dentre as
informações colhidas sobressai uma, que dizia respeito às minas de prata do Cambambe.
Paulo Novaes na visita que fez ao reino, conseguiu despertar interesses
do soberano por aquelas terras. Ele deixou a impressão à coroa portuguesa de que poderia
fazer em Angola uma colonização agrícola fácil, semelhante à do Brasil. Soube ver o
perigo da infiltração das outras potências européias, que começavam a olhar com
cobiça para as terras além-mar. Como o Brasil, Angola teve o seu período pré-colonial,
quando os interesses da coroa portuguesa ficaram voltados para outros territórios em
virtude das condições mercadológicas do século XVI.
"Os colonialismos e imperialismos espanhol, português, holandês,
belga, francês, alemão, russo, japonês, inglês e norte-americano sempre constituíram
e destruíram fronteiras, soberanias e hegemonias, compreendendo tribos, clãs, nações e
nacionalidades. São muitos os que reconhecem que os Estados Nacionais asiáticos,
africanos e latino-americanos foram desenhados, em sua quase totalidade pelos
colonialismos e imperialismos europeus, segundo os modelos geo-histórico e teórico, ou
ideológico, que configurou toda a Europa (Ianni,1996:41).
Não poderia ser diferente a forma adotada pelos portugueses na
ocupação e colonização de Angola, adotando o sistema de capitanias. A diferença
básica é que a capitania foi atribuída ao próprio Paulo Dias de Novaes.
Tinha trinta e cinco léguas de Costa, começando a contar da foz do
Rio Cuanza para Sul. No interior podia entrar até onde fosse possível, recebendo ainda
outras doações, que poderia escolher sob três condições: deveriam ser repartidas em
quatro partes; entre cada uma delas haveria pelo menos um espaço de duas léguas; sendo
aproveitadas no prazo máximo de vinte anos a contar da data da posse. O capitão Paulo
Dias de Novaes tinha obrigações como:
1º - defender, povoar e cultivar a terra, sem qualquer custo à coroa
portuguesa;
2º - construir três fortalezas nas terras do domínio real;
3º - explorar toda a costa ocidental da África desde o Rio Cuanza até ao Cabo da Boa Esperança.
2º - construir três fortalezas nas terras do domínio real;
3º - explorar toda a costa ocidental da África desde o Rio Cuanza até ao Cabo da Boa Esperança.
O donatário ficava, contudo, com uma larga margem de benefícios,
porém sem qualquer recurso da coroa. Nestas condições o mercado escravocrata foi uma
opção rentável, além da utilização de todos os recursos dos rios e portos que nestas
terras houvessem. Acreditava-se que D. Sebastião estivesse decididamente resolvido a
aproveitar ao máximo as terras africanas. Paulo Dias de Novaes tinha ainda a obrigação
de estabelecer as famílias européias na sua capitania, sobretudo agricultores e os mais
variados grupos sociais, independente da procedência na antiga metrópole. Pretendia-se
com esta medida espalhar naquelas terras os costumes europeus e ensinar aos autóctones o
aproveitamento das riquezas naturais. Enfim, era um plano de colonização. Procurava-se
evitar em Angola os erros cometidos no Brasil, aproveitando a experiência adquirida para
os futuros indígenas nas terras de Ngola. Apesar de todo o planejamento o "rei de
Angola não se mostrou tão fiel aliado dos portugueses como o rei do Congo."
(Santos, 1967:35).
Reagindo a invasão, os sobas e os reinos dominados, iniciaram uma
série de revoltas. As mais importantes revoltas ocorreram no sobado da Kisama, e no
sobado dos Dembos que protegiam grupos de escravos fugitivos, do Ndongo, da Matamba, do
Kongo, de Kasanje, do Kuvale e do Planalto Central. Das pequenas revoltas, que foram
apagadas na história dos vencedores, algumas permaneceram como testemunho da
resistência, mostrando que as revoltas nunca cessaram na extensa capitania de Paulo Dias
Novaes.
1ª - A Revolta de 1570: foi liderada pelo carismático
"Bula Matadi", um aristocrata, que vendo o perigo que corria o seu povo, fez uma
guerra de resistência para que não fossem explorados e dominados pelos portugueses. Bula
Matadi mobilizou toda a comunidade para expulsar os portugueses do reino do Kongo, com a
perspectiva de acabar com as intrigas que enfraqueciam o reino. Os portugueses interviram
militarmente ao lado do rei do Kongo, depois de muitas batalhas Bula Matadi foi morto no
último combate.
2ª - Resistência no Ndongo: No reino do Ndongo, foi forte a
resistência contra a chegada dos portugueses. Com o espírito aventureiro, Paulo Dias de
Novaes procurou o Ngola a fim de se informar das riquezas que havia no Ndongo. Desconfiado
das intenções de Novaes, não lhe facilitou seu desejo e teve-o preso em Kabasa durante
cinco anos. Quando libertou o capitão português, ele regressou ao seu país e voltou
alguns anos depois com homens armados, dispostos a fazer a guerra ao Ndongo, a partir da
cidade de Luanda, onde se instalou e mandou construir uma fortaleza.
Ngola Kilwenje era então o rei do Ndongo. O seu exército conseguiu
vencer os portugueses em várias batalhas, embora as armas fossem simples arcos e flechas
contra as armas de fogo que os invasores traziam.
Contudo, a resistência enfraqueceu à medida que alguns chefes foram
abandonando a luta e, quando Ngola Kilwanje morreu, o Ndongo foi aos poucos ocupado pelos
agressores. Muxima, Massangano, Kambambe foram caindo na posse dos portugueses que
construíram fortes nos pontos altos a fim de melhor vigiar e dominar as populações.
Algumas tribos e chefes sujeitaram-se a esta situação e pagaram tributos em escravos aos
capitães portugueses. Outros preferiam fugir das áreas ocupadas e continuar a lutar,
refugiando-se em zonas protegidas como as ilhas do Kwanza.
3ª - Njinga Mbandi: O maior símbolo da resistência ficou para
a Rainha Njinga Mbandi, que além da luta contra a ameaça do colonizador, conseguiu aliar
os povos do Ndongo, Matamba, Kongo, Kasanje, Dembos, Kissama e do Planalto Central. Foi
essa a maior aliança que se constituiu para lutar contra os portugueses. As diferenças e
interesses regionais foram esquecidos a favor da unidade contra o inimigo comum. Esta
unidade teve os seus efeitos positivos: durante vários anos, os portugueses perderam
posições e foram reduzidos a um pequeno território de onde seriam expulsos se não
recebessem reforços. Segundo o historiador Ralfh Delgado em seu livro História de Angola
(terceiro período, de 1648 a 1836),
"Desejando restabelecer a paz com o Governador, depois de
exaustivas lutas, a nova rainha mandou à Luanda (principal base dos portugueses), uma
embaixada, que alcançou os seus objectivos, mediante a intervenção, por ela solicitada,
de figuras eclesiásticas de realce entre as quais o bispo. Proposto em 6 de setembro de
1683, o tratado de vassalagem obedeceu a oito condições, estipuladas pelo Governador e
aceites pelos protetores da soberania". O destaque destes termos está no
item quatro, que na íntegra força a rainha a dar abertura em suas terras para os
forasteiros e caçadores de escravos "Será a mesma rainha obrigada a mandar abrir
os caminhos para o comércio, sem impedimento algum franquiar nas terras do seu estado, e
para que os pumbeiros possam ir e vir livremente sem que ela ou vassalo seu
algum lhe possam impedir, antes lhe mandará fazer toda a boa passagem e tratamento para
que sem dilações façam os resgates a quem foram encaminhados não se consentindo se
alterem as fazendas dos banzos que serão na mesma forma que sempre foram sem engano
ou imposto algum quibasco; ordenará outrossim que no seu quilombo se pratique e corra
somente o côvado de Portugal que é de três palmos, e o verdadeiro por onde as fazendas
neste reino se costumam vender, porém, as que nele se medem por vara que é de cinco
palmos se medirão também no mesmo quilombo; e assim mais será a dita senhora rainha
obrigada a consentir que os pumbeiros dos moradores possam ir comerciar, com os potentados
do reino do Sonso, Quiacar, Punamujinga, Sundi, Casem e Damba, sem que disso possa impedir
nem vassalo seu algum; e o que este impedimento se atrever, de mais do castigo que lhe
der, será remetido a este governo para também por ele se mandar castigar; e para o bom
efeito deste ponto mandará abrir os caminhos aos pumbeiros para que sem embaraço possam
passar" ( Delgado, 1955:72).

Escravos "cangados" (foto Net)
O termo pumbeiros é o mesmo que pombeiros: agentes na sua maioria
formados por mestiços. Os pombeiros trabalhavam com conta dos grandes chefes, sobas ou
militares portugueses. Durante um ou dois anos, internavam-se no interior de Angola,
trocavam os escravos por tecidos, vinho e objetos de quinquilharias, voltando com uma
centena de negros, homens e mulheres acorrentadas. Este tráfico tinha o nome de
"Guerra Preta" porque arrancavam sempre por meios violentos os negros das
aldeias. Contudo eram os próprios negros, entre os quais os Jingas, que, levados pela
ambição de possuir os objetos trazidos pelos portugueses, faziam guerra aos seus irmãos
de cor. Existia até uma moeda especial para pagar os escravos. Em determinada altura, foi
uma espécie de conchinha, importada do Brasil, a que deram o nome de Jimbo. Mais tarde,
um tecido de folhas de palmeiras o "pano" substituiu o Jimbo. Muitas vezes os
auxiliares da "guerra preta" eram os próprios chefes negros, os Sobas que
trocavam os seus súditos por vinho, tecidos, sal ou pólvora. Os portugueses forneciam
auxiliares a estes sobas: um dos seus soldados servia igualmente de guarda e ordenança.
Como constatamos neste documento do século XVII, o comércio, a espionagem e a
evangelização, sempre foram armas imprescindíveis na conquista colonial. Há quem
pretenda que as razões econômicas estão na base da infiltração portuguesa na África,
mas nesse período histórico todas as formas para subordinação foram utilizadas com
estratégias traçadas e coordenadas a partir das principais falhas das futuras colônias,
principalmente na composição étnica de território Angolano. Os acordos de vassalagem
foram extremamente desiguais na composição do reino do Sonso, Quacar, Puriamujinga,
Lindi, Cassem e Damba, pois a passagem dos pombeiros teve a garantia do governo central,
cabendo aos vassalos, sobas e toda a comunidade indígena de Angola aceitar as condições
acordadas na base da imposição militar. Na revolta da Rainha Njinga Mbandi, apesar da
sua percepção para uma possível unificação étnica na luta contra o colonizador, a
questão da força bélica Lusa foi um fator decisivo. No entanto, passados vários
séculos da morte da Rainha Njinga, a idéia da unidade do povo angolano ainda não
configurou-se. Ao final do século XX, vencida a luta contra o colonizador, permanecem as
disputas internas pelo poder, com ideologias marcadas pelo rancor dos diferentes grupos
étnicos na contra-mão da história.
4º - EKWIKWI II do Bailundo. Ekwikwi II, foi outro herói da
resistência, que reinou no Bailundo no planalto Central de Angola há cerca de cem anos,
com influência notável em toda a região. Quando chegou ao poder, os portugueses já
dominavam todo o norte de Angola e preparavam para a penetração no interior do Planalto
Central em busca de cera, borracha e outros produtos. Nessas circunstâncias, Ekwikwi
resolveu preparar o seu povo militar e economicamente para enfrentar a guerra prevista.
Sendo assim, ele intensificou a agricultura, principalmente o cultivo do milho, dieta
indispensável na cultura dos Bantos. O milho era enviado em caravanas para o litoral na
base de troca com os sobados vizinhos. As caravanas do bailundo, com o passar do tempo,
passaram a avançar para outros Estados. Com essas viagens, foram expandindo para as novas
áreas da borracha e colmeias, tornando o reino do Bailundo conhecido em toda a África
Central como o estado mais rico do planalto com vários produtos para o consumo interno e
exportação. A comunidade do bailundo viveu intensamente os modelos para a defesa dos
direitos e soberania dos estados do planalto baseados nos princípios de Ekwikwi II que,
além de fortalecer o seu exército, estabeleceu uma aliança sólida com Ndunaduma I, rei
do Bié, para fortalecer sua posição na região. Ekwikwi II foi um rei progressista,
dinâmico que sempre governou ao lado do seu povo. Ele foi sucedido por Numa II, que,
corajosamente, enfrentou a guerra contra a pesada artilharia portuguesa no ataque à
capital do Bailundo. Aos poucos as forças militares portuguesas foram ocupando pontos
estratégicos. O Bailundo foi totalmente dominado, sem qualquer resistência a nova
imposição Lusitana.
5º- Mutu-Ya-Kevela. Em 1902 os portugueses já tinham o
domínio, e ocupação de grande parte do território angolano. Na região do planalto
houve a fixação de alguns comerciantes portugueses em busca do milho, cera e borracha.
Havia também fortificações construídas em Huambo e Bié para apoiar as trocas
comerciais e manter a ocupação na região. Mesmo em pleno século XX, os portugueses
mantinham o recrutamento para trabalho escravo na agricultura. Mutu Ya Kevela, o segundo
homem mais importante na região, após o rei Kalandula do Bailundo, questionou as
autoridades portuguesas contra o trabalho forçado imposto pelos imperialistas.
Mutu-Ya-Kevela reuniu todos os sobados e reinos do planalto, convocando 6000 homens contra
as colunas militares portuguesas, que sufocaram os rebeldes de Angola em 1902.
6º - Mndume, Rei dos Kwanyama. O sul de Angola esteve sempre
disputado pelos portugueses e alemães. Aproveitando tal rivalidade, Mandume, rei do
Kwanyama, conseguiu obter armamentos dos alemães, que serviriam para lutar contra os
portugueses. Preocupados com uma futura ocupação dos alemães, os portugueses atacaram
Njiva de surpresa, antes que o mesmo organizasse a luta armada. Mandume fugiu, iniciando
em todo o território Ambó, uma tentativa de unir todas as tribos contra os portugueses.
Os Ambós, muito bem organizados, comandados por Mandume, venceram os portugueses numa
série de batalhas, obrigando os militares lusitanos a buscar reforços. Os portugueses
utilizaram um sistema que ambos conheciam muito bem, corromperam parte da guerrilha
Kwanyama, assim venceram as batalhas de Mongwa e Mufilo. Sabendo da vitória dos
portugueses, devido ao grande poder de artilharia, e pela traição de alguns sobas,
Mandume suicidou-se em 1917, preferindo a morte do que viver sob a subordinação dos
colonialistas. Apesar da resistência e com a luta pela independência de alguns reinos, a
ocupação do litoral ocorreu por meio de um jogo de interesses comerciais entre os
portugueses e as diferentes tribos de Angola. A espionagem, evangelização e tribalismos
muito contribuíram para a ocupação tanto no passado, como no presente. A configuração
étnica de Angola, determina um provincianismo, ou regionalismo, que dificulta a
regulação social do Estado, em função dos diferentes dialetos no mesmo território.
Segundo o etnólogo português, José Redinha, em 1950, as principais
etnias que habitavam Angola, então com uma população de 3.989.486, estavam assim
distribuídas.
1.1. OCUPAÇÃO PORTUGUESA: DO LITORAL AO INTERIOR
"Prendeste-me
Ai, prendeste-me
Porque gritei viva Angola
Quando um dia voltar
terei na cabeça uma grinalda de mussequenha
Na mão direita rabo de Leão
Na mão esquerda rabo de onça
Nos pés alparcatas de pele de elefante
E andarei pela rua gritando
Liberdade, liberdade, liberdade
E... e...
Com todo fôlego gritarei bem alto:
Viva Angola."
Ai, prendeste-me
Porque gritei viva Angola
Quando um dia voltar
terei na cabeça uma grinalda de mussequenha
Na mão direita rabo de Leão
Na mão esquerda rabo de onça
Nos pés alparcatas de pele de elefante
E andarei pela rua gritando
Liberdade, liberdade, liberdade
E... e...
Com todo fôlego gritarei bem alto:
Viva Angola."
(Xitu - Vanhenga, 1980:3).
Na história da colonização portuguesa sempre esteve presente um
imaginário, em conjunto com os fatos reais encontrados nas vastas possessões de Portugal
no mundo. A ambição serviu como justificativa entre o discurso e a prática, levando
grupos, raças, etnias a uma degradação social incontestável na história do homem
ocidental. No caso de Angola, até ao final do século XIX, a presença portuguesa
limitou-se somente a pontos específicos e geopoliticamente estratégicos na defesa do
território como Luanda e Benguela, que através dos seus portos asseguravam o transporte
para o tráfico de escravos para o Brasil. Durante quatro séculos esta atividade, que
compreendeu as alianças iniciais entre as coroas portuguesa e congolesa, foi uma das
principais receitas do Estado. A fixação no litoral representou uma das primeiras
tentativas para a ocupação final, já que a cada dia a penetração para o interior
fazia-se necessária para a obtenção da força escrava humana. Dessa forma montou-se uma
estrutura de intermediações entre os comerciantes do litoral e os pombeiros, caçadores
de escravos e tudo aquilo que fosse comerciável nas terras de Angola. Apesar dessa
intermediação, a expansão só ocorreu em função das pressões internacionais
desencadeadas pela "corrida ao Continente Africano", sinalizada pela
Conferência de Berlim, de 1884 que institucionalizou uma divisão das fronteiras, em toda
a África. Mesmo assim havia opções de tornar Angola um centro de ocupação a partir do
litoral, deixando a autóctones a exploração dos recursos naturais, ou de ocupar o
planalto com famílias européias, intervindo no processo produtivo.
Justamente nesse ponto havia divergências sobre qual seria o sistema
ideal. Alguns Governadores Gerais eram favoráveis a uma forte influência na zona
próxima do litoral, outros eram favoráveis ao despovoamento do sul de Portugal e da
região de Açores para a ocupação do sertão africano. No final do século XIX, já
havia um forte consenso para a ocupação do interior. Alguns fatos de fixação já eram
evidentes, como as 25 famílias oriundas do Recife, no litoral do Namibe, que expandiam-se
para as regiões da Bibala e Capangombe, em 1849, que representaram uma tímida
ocupação. Somente em 1885, cerca de 600 pessoas da Ilha da Madeira vão ocupar o
Planalto do Lubango. Segundo historiadores Angolanos, quase todos os portugueses que
emigravam para Angola eram condenados ou exilados na metrópole. Isso tornou a colônia,
durante séculos, uma masmorra ou presídio dos colonos brancos em Angola. Enquanto não
ocorria uma fixação total do território, o tráfico de escravos mantinha as receitas da
metrópole aquecidas, pois os seus efeitos caracterizavam a seguinte situação, segundo
Zenha Rela, (1992:25).
"Existência de alguns estabelecimentos na costa - principalmente
Luanda e Benguela, onde a presença de portugueses provocava a existência de estruturas
sociais de tipo nitidamente colonial, vivendo exclusivamente da atividade comercial; esta
caracterizou-se até cerca de 1840, pela exclusividade do tráfico negreiro e a partir
desta data, foi ultrapassada em função da abolição do tráfico, pelo comércio da
borracha, marfim e outros produtos tropicais, entre os quais começa a ter alguma
expressão o café. Estas estruturas que entre si não apresentam qualquer coesão,
correspondendo de fato cada estabelecimento a uma micro-sociedade específica, definiam um
elevado nível de estratificação social na qual destacavam dois grupos: um constituído
pelos europeus, mestiços e alguns negros ditos assimilados (cultura dos brancos) e outro
pelos não assimilados, os "avassalados"; a existência individualizada destes
grupos nos quais o segundo funcionava como sendo uma "periferia" do primeiro,
não significava porém que as relações do núcleo central fossem homogêneas; pelo
contrário, verificava-se uma forte estratificação e uma grande diferenciação mesmo
entre o grupo colonizador, sendo de norma uma nítida e prévia separação entre as zonas
do funcionalismo público - civil e militar - e os comerciantes; é também nestes
núcleos que têm origem as "aristocracias locais" negras e mestiças que
desempenharão um papel extremamente importante em todo o processo subsequente;
No que diz respeito às formações sociais locais, e para além dos
pequenos grupos absorvidos pelo colonizador, as suas relações com este reduziram-se
sempre a forma de "troca desigual" e apenas às relações comerciais
esporádicas".
Do ponto de vista político, a ocupação representaria uma imediata
resposta às pressões internacionais, mas Portugal teria que encontrar formas
alternativas na implantação do sistema colonial, integrando Angola num modo de
produção que suportaria a carência do investimento. Esse custo teria que retornar aos
cofres da Metrópole de forma rápida e eficiente. A expatriação das riquezas do
continente que durante séculos foi feita mediante o tráfico, da venda de armas,
pólvora, bebidas alcoólicas, tecidos e missangas foi transferida para a exportação de
matéria-prima, de que o processo industrial europeu tinha necessidade, como: fibras,
óleos vegetais, minérios e produtos da pesca. Apesar das divergências ocorridas em
diferentes correntes colonialistas, somente em 1930 com a publicação do Ato Colonial, é
que se fixam definitivamente alguns princípios na ocupação. Para Rela (1992:26),
"o sistema desenvolveu-se então, a partir dos embriões
pré-existentes, um sistema eco-cultural colonial integrado, cada vez mais vasto e
complexo, baseado nas cidades, nas concentrações agrícolas e pecuárias, nas empresas
de extração de minérios, etc. O centro deste sistema foi constituído por uma
imigração portuguesa cada vez mais acentuada. Houve uma integração, muitas vezes
precária, neste núcleo"
de um número extremamente limitado de africanos assimilados e um
número maior de mestiços. Na periferia do sistema colonial, numa posição agregada e
marginal, encontrou-se um número crescente de africanos que constituíram a mão de obra
não qualificada (ou pouco qualificada), de quem o sistema precisava para o seu
funcionamento. Por outras palavras: a implantação efetiva do sistema colonial encontrava
a sua lógica interna quer no crescimento da disponibilidade de matérias-primas para
exportação, quer no aumento da capacidade de absorção de bens de consumo, em grande
parte importados; a forma de alcançar estes objetivos exigia a participação, mesmo que
marginal de um número sempre crescente de produtores/consumidores e a sua adesão,
traduzida em dois aspectos concretos: o assalariamento e/ou a monetarização. Na ênfase
de tais objetivos, a metrópole acabou construindo mecanismos de dominação colonial que
garantiu o funcionamento e o desenvolvimento de uma cultura colonial que, mesmo após a
independência do país, ainda se reflete em muitos aspectos da cultura angolana. Nesse
mecanismo desenvolvido destacamos os seguintes:
"Apropriação de terras, tendente à constituição de grandes
empresas segundo princípios geralmente conhecidos como recrutamento da força de trabalho
que evoluiu de uma agricultura de plantação.
- implantação de um sistema de recrutamento da força de trabalho,
que evoluiu de um típico sistema de trabalhos forçados, para esquemas de recrutamento
que se diferenciavam dos anteriores sobretudo em termos formais;
- imposição de culturas obrigatórias, fundamentais para o processo
de desenvolvimento do colonizador - como o algodão - não sendo permitido ao agricultor
cuidar das suas culturas alimentares sem ter preenchido a quota que lhe havia sido
atribuída pelas entidades administrativas;
- imposição fiscal excessivamente alta, independente do rendimento
gerado pelo agregado familiar (imposto de capitação);
- desmembramento absoluto das redes comerciais locais pela proibição
do comércio ambulante (funanço), obrigatoriedade de localização dos estabelecimentos
em povoações comerciais e estabelecimento de regras muito apertadas de licenciamento
comercial." (Rela, 1992:27).
O esquema de recrutamento, determinado por uma imposição cultural e
fiscal rígida, mais tarde desencadeou a subdivisão étnica baseada em escala de valores
hierárquicos entre negros assimilados e não assimilados. Aos que usufruíam o estatuto
de assimilados, trocavam seus traços culturais em aceitação a cultura européia de uma
minoria branca; aos assimilados cabiam tarefas subalternas de pouca expressividade, que
para os brancos não lhe cabiam fazer. Aos não-assimilados, na sua maioria considerados
indígenas e rústicos, cabia uma política de segregação, que os impedia de exercer
qualquer cidadania, inclusive o direito de ir e vir nos centros urbanos. Assim ao final da
imposição colonial, ficou difícil uma reestruturação ou uma expansão da migração
para uma futura integração da população periférica em único núcleo. Por outro lado,
o crescimento da população branca foi de pouca expressão, em função dos preconceitos
criados em torno da vinda dos futuros imigrantes, que consideravam a África terras
selvagens, povoada por indígenas canibais. Do século XIX até início do século XX, era
de aproximadamente 9000 habitantes, conforme mostra a tabela 2:
TABELA 2: Número de Brancos que Viviam em Angola (1848-1974)
ANO
|
NÚMERO
|
1845
|
1832
|
1900
|
9198
|
1920
|
20200
|
1940
|
44085
|
1950
|
78286
|
1960
|
172529
|
1961
|
162387
|
1970(*)
|
290000
|
1974(*)
|
335000
|
Fonte: MANUEL, J. R. Z. Angola - Entre o presente e o futuro
(*) Estimativa
Os dados de censo populacional em Angola são contraditórios,
primeiro, em função das estratégias coloniais para ocupação, segundo, nos censos
realizados, todos os resultados ficavam sob a tutela do conselho ultra-marino que entendia
que tais dados facilitaram a organização militar para aqueles que lutavam contra a
metrópole.
De acordo com a Tabela 2, somente neste século, houve um incremento
considerável da população européia, consolidando, então, o processo da ocupação
colonial. Ao mesmo tempo, criava-se entraves para uma futura aglutinação populacional,
já que essa população européia tinha como função prioritária uma "ação
civilizadora", voltada, na prática, para a exploração máxima da colônia,
devastadora do ponto de vista cultural para a nação Angolana, fortalecendo adversidades
locais e regionais no campo étnico, o que irá retardar o processo de independência
devido à lenta unificação das forças políticas nacionais.(...)
Nota: Seguidamente o autor descreve a história de Angola moderna que já foi relatada
pormenorizadamente noutros textos deste site por isso achamos não ser necessário
repetí-la.
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