MPLA: Fome, violentações, assassínios.

A LIVRARIA DO MÁCUA
http://www.macua.org/livros/vivosemortos.html
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MPLA:
FOME, VIOLENTAÇOES, ASSASSÍNIOS
Dia a dia se cavava
mais fundo o fosso que dividia os movimentos e a população. Aumentavam os roubos, os
assaltos, os saques, a selvajaria, cujos autores nem sempre eram marginais, mas pessoas
que, até ao 25 de Abril, se comportavam como cidadãos decentes e zelosos no cumprimento
do dever e no respeito pelas relações entre as etnias.
Havia constantes incidentes que punham frente a frente o MPLA e a FNLA. Desordens quase sempre originadas pelo MPLA, que as tropas portuguesas aplaudiam, quando não favoreciam em participação activa.
Havia constantes incidentes que punham frente a frente o MPLA e a FNLA. Desordens quase sempre originadas pelo MPLA, que as tropas portuguesas aplaudiam, quando não favoreciam em participação activa.
Era vulgar militantes do MPLA e militares
portugueses saudarem-se amistosamente, com as mãos levantadas e os em "V",
acamaradando e insultando-nos com uma identidade ideológica, que, simultaneamente, nos
ameaçava. As Forças Armadas portuguesas ajudavam o MPLA a apossar--se de Luanda,
mantendo-se passivas ante os ataques à etnia branca.
Ninguém se enganava sobre o que o destino
lhe reservava, em meio ao confusionismo e à incoerência absoluta.
Chegou a fome. A anarquia reinou nas
regiões que a FNLA ocupara, escorraçando não só as FAPLA, como também as
populações aderentes ao MPLA. Forças daquele movimento desceram para o Ambriz, para
Carmona, para a zona da etnia Quicongo. O MPLA garantia que, contra ventos e marés,
prosseguiria a guerra até à "libertação" de Angola.
Saltava aos olhos, perante o fracasso do
Governo de transição, que os movimentos nunca se reconciliariam num território quase
independente. Usavam, qualquer deles, a mesma linguagem: ocupar, desmantelar, esmagar,
vencer e — pior — vingarem-se.
Em Maio, numa reunião convocada pela OUA
para Kampala, Idi Amin Dada e Mobutu concordaram que a solução do conflito seria
internacionalizá-lo, com a participação da ONU e da própria OUA. Amin propôs que um
exército de dez mil homens, armados pela OUA, interviesse.
Em Junho, na capital angolana, a
ferocidade não conheceu limites. O MPLA, com a colaboração de militares portugueses,
reduziu a escombros as delegações da FNLA. Móveis e documentos juncaram as ruas de
destroços, aos quais foi largado fogo.
Seguiu-se uma campanha desenfreada para
explorar o obscurantismo de brancos e negros. Dizia-se que a FNLA assava crianças,
arrancava corações, bebia o sangue dos inimigos; que, na delegação da Avenida do
Brasil e no quartel do Casenga tinham sido descobertas salas de tortura onde se escondiam,
dentro de frigoríficos, frascos com sangue e corações humanos; que havia corpos de
pessoas queimadas e mutiladas.
A médica encarregada do laboratório da
Faculdade de Medicina desmentiu esse tipo de propaganda, divulgando que o sangue e os
corações pertenciam ao Museu Anatómico. Foi presa, ante o pavor dos filhos. A ameaça
de greve geral dos médicos salvou-a. Libertaram-na, expulsando-a para Lisboa.
Todavia, mesmo das mais absurdas
afirmações, que os factos contradizem, alguma coisa fica. E, assim, a posição da FNLA
tornou-se insustentável em Luanda. O MPLA, com forças portuguesas, iniciou um
perseguição tenaz. Presenciei, na Rua D. João II, à entrada da Rua coronel Artur de
Paiva, "chaimites" dispararem sobre soldados da FNLA, que fugiam desarmados e
cujo medo era tão grande, que, enquanto corriam, despiam a farda, para manifestar que
estavam indefesos e que apenas queriam salvar-se. Pretendiam alcançar o Bairro do
Saneamento onde viviam os ministros da FNLA e o largo do Palácio, na esperança de, ali,
conseguirem protecção. Na Calçada de Santo António, defronte da Rádio Iglesia,
repetiu-se igual caça ao homem. A tropa portuguesa sorria perante o espectáculo e as
balas não paravam de chover. Os mortos — não sei quantos — lá ficaram,
tombados nos passeios ou no pavimento das ruas. Os que viveram foram retirados pela UNITA
e levados para as terras donde eram oriundos.
Restou, à FNLA, em Luanda, a Fortaleza de
São Pedro da Barra cuja guarnição resistiu, durante muito tempo, aos assaltos do MPLA.
Recebendo reabastecimento à custa de subterfúgios que ultrapassavam as mentes mais
imaginosas, os militares cercados não se rendiam. Uma ambulância foi destruída e nela
morreram enfermeiras e enfermeiros. Granadas explodiram nos depósitos da Petrangol, da
Refinaria de Luanda. A cidade inteira esteve prestes a sumir-se num mar de Labaredas que
nada poderia apagar, se o combustível derramado se inflamasse.
Para desespero da FNLA, um dos seus
representantes no Governo, o ministro da Agricultura, Neto, assinou a rendição dos
sitiados e fugiu para a Suíça onde se reuniu à mulher e aos filhos. Os defensores da
Fortaleza baixaram os braços e sairam da cidade sem serem molestados pela MPLA. Constou,
na altura, que a FNLA minara o porto de Luanda e que, portanto, o MPLA não poderia
receber armamento desembarcado de navios da Cortina de Ferro.
Não foram necessários muitos dias para
que a UNITA seguisse as pisadas da FNLA, abandonando Luanda. O Governo, naturalmente,
desapareceu. O MPLA dominava a cidade e os subúrbios.
O "poder popular" inaugurou a
era dos grandes assaltos, dos raptos, das buscas domiciliárias sob nenhum motivo, das
violações de mulheres e raparigas, até de crianças, em plena via pública, e diante
dos maridos e pais, das torturas, das mutilações, dos assassínios a sangue frio e só
pelo prazer de matar, das casas incendiadas por desfastio, e das prisões.
O MPLA possuía diferentes tipos de
cadeias e felizes eram aqueles que escapavam às sevícias mais abjectas ou à detenção
nos curros da praça de touros.
Um funcionário do Matadouro foi preso com
um filho de vinte anos, bateram-lhe durante horas e abriram-lhe a cabeça à catanada,
inutilizando-o para o resto da vida.
Ao marido de uma escriturária da DGS,
depois de quase o matarem à pancada, enrolaram-lhe, nos testículos e no pénis, um
rastilho de pólvora. Quando se preparavam para atear fogo, um soldado das FAPLA
"condoeu-se" e convenceu os camaradas a colocarem o rastilho num dos
antebraços da vítima, onde o fizeram arder.
Homens e mulheres enlouqueceram ou
morreram nas masmorras secretas dos muceques.
O engenheiro Bandeira, administrador da
Petrangol, ficou com braços e pernas deformados por uma sessão de tortura, finda a qual
o amarraram com tal força que o sangue não circulava.
Um pasteleiro, morador no bairro da Cuca,
foi espancado e obrigado a assistir à violação da mulher e das filhas. No dia seguinte,
a família foi a Palácio, relatando a sua odisseia ao general Silva Cardoso. O governador
desceu ao pátio e, perante o que ouviu, chorou. Não podia fazer mais nada.
Não chegariam as páginas de um volumoso
livro para registar, caso a caso, o que sofreram os luandenses nessa época.
É então, em Junho-Julho, que se
prenunciou o grande êxodo, avalancha indescritível da miséria de seres humanos
acossados por feras.
Agosto, Setembro, Outubro de 1975 são
três meses que os angolanos de várias etnias jamais esquecerão, a dor, o luto, a fuga
sem esperança e sem destino, fabricando-lhes uma cruz insuportável. Se não foste tu,
foi o teu pai — o aforismo ressuscitou na inversão dos valores mais caros ao
Homem.
O MPLA não escolhia, na bestialidade dos
meios para atingir o fim: ser o único detentor do Poder. A complacência e a cobardia
das tropas portuguesas eram encorajamento suplementar para os carrascos.
Dentro da boa técnica comunista, o MPLA
sempre aproveitou a propaganda para mobilizar as massas e atraí-las emocionalmente a
si. Foi o que fez, em Dezembro de 1974, com a morte de um negro, o enfermeiro Benge —
Catarina Eufemia angolana e de calças. Assassinado a tiro, em discussão de
taberna num muceque, não se curou das causas, nem da identidade do criminoso. Para o
MPLA, o incidente calhava às mil maravilhas para montar um espectáculo de envergadura e
de resultados de antemão assegurados. Por mor de convocações profusamente
distribuídas, por apelos na Rádio, por notícias nos jornais, multidões acompanharam o
funeral do enfermeiro, que foi promovido a mártir. Pobre do Benge, um indivíduo sem
qualidades ignorado habitante de Luanda, que, cortada a sua vida numa infeliz altercação
de taberna, serviu ao MPLA de bandeira para atrair adeptos, principalmente nos muceques.
A criminalidade correu em Angola, como rio
caudaloso de amargo e farto primitivismo.|
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