Os últimos dias de Savimbi

Chamada fatal para Savimbi
Um telefonema para Lisboa terá traído o
líder da UNITA
Uma comunicação telefónica para Lisboa feita por Jonas Savimbi a
partir da mata do Moxico, pode ter sido fatal para o líder histórico da UNITA, revela
esta terça-feira o Diário de Notícias. Savimbi terá feito essa chamada no dia
13.
Na véspera da sua morte, a 21 de Fevereiro, aquele diário garante que
um elemento de uma coluna militar da UNITA – que na altura estaria a 70 quilómetros
da zona onde Savimbi se movimentava – fez um telefonema para Paris.
O telefonema feito para Lisboa terá traído o velho guerrilheiro,
facilitando que a sua posição fosse referenciada.
Em telegrama datado de Luanda, a Lusa citava, na segunda-feira, uma
fonte governamental dando a informação de que «terá sido por causa de uma
comunicação para o exterior feita na passada sexta-feira (dia 22) que o ponto onde
Savimbi se encontrava foi determinado».
Os últimos dias de Jonas Savimbi na versão de quem o
acompanhou
por: Armando Rafael - 28 Setembro 2006
Relato dos últimos dias de vida de Jonas Savimbi, denúncia de uma
traição ou mero ajuste de contas? Qual destas características se adequa melhor para
descrever o livro - Memórias de um Guerilheiro - que o actual líder parlamentar da
UNITA, Alcides Sakala, lança hoje à tarde na Fundação Mário Soares, em Lisboa?
São três anos e meio de memórias, que se iniciam em Dezembro de 1998
e que terminam em Março de 2002, quando representantes do Governo de Angola e da UNITA
decidiram pôr termo a quase três décadas de guerra no país, dias depois da morte de
Jonas Savimbi.
"Fizemos da morte em combate do Presidente Savimbi uma
oportunidade para a paz", escreve Alcides Sakala, que fez parte da coluna que
acompanhou o líder da UNITA nesta espécie de recriação da "longa marcha" que
a guerrilha percorreu após a Independência, em 1975. Só que desta vez, havia uma
diferença substancial: em vez da Jamba, esperava-os uma decisão. Que fazer?
"A UNITA poderia ter continuado a luta da resistência, talvez
(...) na província do Moxico ou em circunstância mais difíceis (...) nas províncias de
Kuanza-Sul e de Benguela. Contudo, resistiríamos por mais quanto tempo, com a carga de
sanções a pesarem nossas costas, num mundo em mudança?"
Perseguidos, com fome e, sobretudo, já exaustos, como se depreende
pelo relato, minucioso, que o então responsável pelas relações internacionais da UNITA
foi fazendo ao longo desses três anos e meio, que mais poderiam fazer os seus
responsáveis do que aceitar o acordo que Luanda lhes propôs?
Especialmente quando a UNITA (leia-se o general Altino Sapalalo Bock)
cometera o erro de atacar o Kuíto em 1998, sofrendo ali uma derrota que Savimbi tinha
antecipado e que os deixou sem retaguarda perante a contra-ofensiva das Forças Armadas
Angolanas.
Será que isto explica as traições e as conspirações a que alude
Alcides Sakala nas suas Memórias de um Guerrilheiro, e que, em sua opinião, explicam a
morte de Jonas Savimbi?
Curiosamente esta é a parte em que o "diplomata" Alcides
Sakala mais se resguarda, realçando que não presenciou a morte de Savimbi e que tudo o
que sabe lhe foi revelado por terceiros. Subtileza que não o impede, no entanto, de
aludir a outros episódios, eventualmente só perceptíveis por quem está a par da
história da UNITA.
Senão como explicar, por exemplo, esta passagem: "não tivesse
sido a traição de alguns dos seus homens de confiança, que forjou e formou desde a
fundação da UNITA (...) [e] Jonas Savimbi nunca teria sido morto pelos soldados das
FAA".
Será que foi?
Ou, então, como explicar, que a direcção política da UNITA tenha
sido surpreendida dias depois, como Alcides Sakala deixa perceber, pelos acordos que os
militares da organização estavam prestes a firmar?
Detalhes de uma história que se vai fazendo. Com livros destes.
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