
D. Filomeno Vieira Dias, que
toma posse este sábado como arcebispo da Arquidiocese de Luanda, disse
em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, que a Igreja vai
privilegiar na relação com o Estado, o diálogo, a escuta e as questões
convergentes.
Citou como exemplos, as questões da educação da juventude, do emprego,
saúde e combate à pobreza. O arcebispo quer uma Igreja ao serviço de
todos, que procura colocar no centro da sociedade o Homem e a Nação
Angolana. D. Filomeno pediu aos actores políticos que nos seus programas
partidários, procurem também colocar no centro o Homem e a Nação
Angolana, olhando para o que é melhor para todos e sobretudo “para a
felicidade individual e colectiva”.
Jornal de Angola - Como recebeu a notícia da nomeação para dirigir a Igreja em Luanda?
D. Filomeno Viera Dias - Recebi a notícia com certa surpresa. Estava em
Cabinda a trabalhar, no início do ano pastoral, que para nós começa com a
preparação do Natal, quando recebi a comunicação. Hesitei um pouco
porque tinha vários planos para a diocese de Cabinda. Tínhamos acabado
de fazer a Assembleia Diocesana, mas depois compreendi que nós estamos
para servir e para servir onde a Igreja precisa de nós. Daí, confiado na
graça de Deus, aceitei o convite e vim para Luanda.
JA - Quais sãos os principais desafios da Igreja em Luanda?
FVD - Quando comecei a pensar o que significa Luanda com os seus seis
milhões de habitantes, como principal centro económico do país, com a
confluência de pessoas vindas dos mais diversos pontos do país e do
mundo, eu disse que tenho diante de mim um imenso desafio. Porém sei que
não trabalharei sozinho. Eu apenas vou ser o animador de uma comunidade
de pessoas dispostas a trabalhar em nome da Igreja. Padres, madres,
religiosas, leigos, pessoas muito dedicadas que têm feito imenso. Por
isso, agora vou escutá-los e partilhar com eles ideias, começar a
trabalhar no que é mais oportuno e urgente. Mas trabalho não falta em
Luanda.
JA - Até à nomeação do novo bispo para Cabinda, como vai administrar as duas dioceses?
FVD - É uma boa pergunta. Naturalmente que tenho de repartir o meu
tempo entre Cabinda e Luanda. Por um lado, ir preparando essa transição
em Cabinda, para que o novo bispo encontre as melhores condições para
iniciar o seu ministério. E por outro lado, aproximar-me da realidade
pastoral de Luanda.
JA - Vai ser um pastor itinerante nos próximos tempos?
FVD - A minha vida vai ser entre Luanda e Cabinda com o coração ainda em Cabinda.
JA - Está satisfeito com os resultados obtidos no governo pastoral da diocese de Cabinda?
FVD - Nós olhamos sempre os resultados numa perspectiva espiritual. Em
consciência procurei fazer o melhor, dar a minha contribuição para que
a comunidade de Cabinda pudesse desenvolver-se e dar respostas aos
desafios e às esperanças da comunidade humana, já que a Igreja não está
só ao serviço dos católicos, mas ao serviço de todos, em tudo aquilo que
pode contribuir para o bem e felicidade dos homens. Penso que fizemos
isso, sobretudo criámos uma fraternidade entre todos os fieis
católicos.
JA - O que pensa dos atentados na Nigéria que visam principalmente cristãos?
FVD - É uma situação antes de mais triste, porque sempre que a vida
humana é atingida, as pessoas sentem-se magoadas, ofendidas. Nós vivemos
um momento de tristeza ao mesmo tempo é algo deplorável. Deus é alguém
comprometido com a vida e o Homem. Por isso, é um equívoco agir em nome
de Deus violentamente e tirar a vida ao outro e atingir inocentes. É
uma situação que preocupa a todos e todos devemos procurar respostas.
JA - O que é preciso fazer para acabar com a intolerância religiosa?
FVD - Os governos não são os primeiros responsáveis pela intolerância
religiosa, mas têm a possibilidade, de forma indirecta, de contribuir
para que esta mentalidade não seja dominante nem predominante. Os
governos podem contribuir através da educação e ensino, mas também a
comunicação social, artistas, escritores , actores, jornalistas. Todos
devem contribuir para criarmos uma cultura da tolerância e do respeito
pelo outro. Do respeito pela diferença e pelo que é diferente.
JA - O que fazer, concretamente?
FVD - Devemos criar uma cultura que nos leve a admitir o diferente, não
como uma ameaça ou um inimigo a destruir. Temos de criar uma cultura e
um ambiente social em que nos habituemos a conviver no respeito pelas
escolhas e pelas opções dos outros. Isso só se consegue através da
educação, da comunicação social e do papel que as próprias comunidades
religiosas devem desenvolver nesse sentido.
JA - Em Angola há intolerância religiosa?
FVD - Felizmente não temos essa situação. Mas a Nigéria também não vivia esta situação até há poucos anos.
JA - Como vê o fundamentalismo islâmico?
FVD - Todos os fundamentalismos são maus e empobrecedores. Os
fundamentalismos são de exclusão, não integram, não constroem a
comunhão. Todo o fundamentalista é fechado e está fechado nos seus
princípios e nas suas convicções e valores. Fora disso não se consegue
relacionar. Por isso, o fundamentalismo não é um factor positivo nas
convivências e nas sociedade abertas.
JA - Há hoje mais vocações sacerdotais?
FVD - Nós vivemos um período em que tivemos um grande florescimento de
vocações masculinas, femininas e vocações laicais de jovens que não eram
nem padres nem madres, mas colocavam-se ao serviço da Igreja e da
sociedade. Hoje isso já não se regista, mas podemos dizer que atingimos
uma certa estabilidade e felizmente não faltam estes jovens que se
colocam numa disposição de servir o Homem em nome de Deus.
JA - O que a Igreja de Luanda vai destacar na relação com o Estado?
FVD - Temos várias questões que são preocupação do Estado e da Igreja. E
nós vamos privilegiar estas questões convergentes onde nos encontramos
com a mesma preocupação, mesmo que sob pontos de vista diferentes.
JA - Quais são os pontos comuns nessa relação?
FVD - Educação da juventude, desemprego, saúde, o mercado informal, o
combate à pobreza. Parecendo que não, há muita gente pobre. O importante
é privilegiar uma relação com o Estado de diálogo e escuta. Essa é a
nossa atitude fundamental, não vamos caminhar de costas viradas, nem
numa atitude de confronto. A nossa missão é justamente sermos os que
escutam, dialogam e procuram criar sinergias, convergências para
atingirmos o melhor bem da sociedade.
JA - De que maneira as autoridades eclesiásticas podem dar o seu contributo aos políticos?
FVD - A nossa contribuição como Igreja é estar ao serviço de todos e
ajudar todos a olhar aquilo que é melhor para todos. Nós temos um
conceito, que é o bem comum. Outro conceito da Igreja é a justiça
social. Que todos na diversidade de princípios e de programas políticos e
partidários, procurem colocar no centro o Homem e a Nação Angolana,
olhar aquilo que é melhor para todos.
JA - O que recomenda como princípio?
FVD - Devemos todos juntos promover a felicidade individual e colectiva.
Se conseguirmos passar esta mensagem e motivar a sociedade à volta
deste princípio, eu acho que estamos a dar o nosso melhor contributo na
construção da nossa sociedade que queremos forte, próspera e
desenvolvida. Porque a força da sociedade que gera desenvolvimento e
progresso é a força de cada um dos seus cidadãos.
JA - Os cristãos têm cumprido o seu papel na sociedade angolana?
FVD - Não posso fazer uma avaliação, posso dizer que em grande parte
sim, mas como em tudo que é obra humana, com algumas limitações. Posso
dizer que em alguns casos têm cumprido com uma certa deficiência, mas o
papel da Igreja é sempre estar ao serviço do Homem, procurar o Homem e
com simplicidade compreender as pessoas. Mais do que uma atitude de
julgar, emitir juízos, de condenar, a Igreja existe exactamente para
compreender as pessoas nos seus problemas.
JA - Como acha que a Igreja deve situar-se?
FVD - Muitas vezes não sabemos o que envolve determinadas situações, o
que leva as pessoas a tomarem certas decisões, a fazerem escolhas. Nós
precisamos de nos colocar no mundo numa atitude mais humilde e
dialogante, numa linha mais de compreensão e persuasão. Acredito que se
tivermos essa atitude, cumpriremos a nossa função de estar ao serviço da
sociedade sem qualquer discriminação, mas procurando estar em diálogo,
em escuta em relação a todas as pessoas, tendências e sensibilidades.
JA - O Papa Francisco tem assumido uma postura actuante. Como a Igreja em Angola encara os apelos do Papa?
FVD - De forma muito positiva. O Papa de alguma forma tem desafiado e
desinstalado a própria Igreja. O Papa diz: Igreja saia dos gabinetes, de
posições e de juízos já feitos e parta ao encontro do homem concreto!
Ele até diz que nós devemos sentir nas nossas vestes religiosas, o suor e
o cheiro das pessoas. Estarmos mergulhados naquilo que é a vida das
pessoas, porque só assim seremos credíveis e podemos compreender melhor
como as pessoas vivem. Por isso nos sentimos desafiados pelo Papa
Francisco a avançar com gestos concretos.
JA - A Igreja em Angola tem canais de comunicação e concertação com o Vaticano?
FVD - Sim. Temos a Nunciatura Apostólica, que é a representação do
Vaticano numa Nação. O núncio e a nunciatura têm uma função civil
junto do Estado angolano, das instituições e das autoridades civis
angolanas. Representam o Estado do Vaticano junto do Estado Angolano.
Mas têm também uma função eclesiástica junto dos bispos e dos cristãos
do país. O núncio apostólico junto da Igreja é representante e presença
actuante do Santo Padre enquanto pastor supremo da Igreja junto das
nossas comunidades cristãs. É uma presença de acompanhamento, partilha e
escuta para que se crie harmonia na vida da Igreja.
JA - As posições do Papa Francisco são recebidos e imediatamente
interiorizadas, ou passam por um processo de ponderação e maturação?
FVD - O Papa fala de uma Igreja solidária com os pobres. Estamos a fazer
aqui em Angola as nossas escolas. As instituições da Igreja estão
atentas aos pobres. Mas temos de nos interrogar se estamos a ir ao
encontro dos pobres ou estamos só à espera que os pobres nos batam a
porta. Quando nos batem às portas, como os atendemos? Com respeito e
dignidade ou como pobrezinhos e os últimos da sociedade que nos estão a
incomodar? Estamos só a pregar ou estamos a comprometer-nos realmente
com as pessoas mais necessitadas? Os nossos projectos estão voltados
para as necessidades ou são projectos meramente comerciais para fazer
dinheiro? Não é esta a missão da Igreja. A Igreja existe como Cristo,
para servir de modo desinteressado.
23-01-2015 | Fonte: JA