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domingo, abril 19, 2015

Angola a maioria do povo está a ficar mais pobre


Angola: a maioria do povo está a ficar mais pobre
Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em 2002, Angola tem tido um crescimento económico sem precedentes. já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo em África e é o quinto maior exportador de diamantes do mundo. Mas, apesar de ter a economia em rápida expansão, dois terços da sua população continua a viver com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.
Por Louise Redvers, de Luanda para a IPS
Um motorista conduz um reluzente BMW com tracção às 4 rodas, saindo de um condomínio fechado e transportando uma executiva elegantemente vestida e os três filhos fardados, numa manhã como todas as outras na capital angolana, Luanda.
Ao deixar o seu escritório com ar condicionado para almoçar, a nossa executiva vai pagar 100 dólares pela sua refeição num café na marginal e gastar 300 dólares, sem qualquer problema, num pequeno número de produtos alimentares importados adquiridos numa luxuosa mercearia.
A poucas milhas de distância, uma outra mulher está sentada na berma de uma estrada poeirenta, uma entre muitas que vendem latas amolgadas com óleo de palma e tomates pisados. Estas mulheres sentam-se no chão ou em cima de baldes de plástico virados ao contrário, a poucos metros de uma vala cheia de lixo putrefacto.
Sem prestar atenção ao cheiro nauseabundo e aos enxames de moscas, ela faz tranças no cabelo de outra mulher e vê os filhos subnutridos a brincar em poças de lama perto dali. Ambas estas mulheres são angolanas, mas nunca se irão encontrar, e será pouco provável que alguma vez compreendam as realidades opostas uma da outra.
Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em 2002, o país tem gozado de um crescimento económico sem precedentes - com um crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 15 por cento - graças aos elevados preços do petróleo e a milhares de milhões de dólares de investimento estrangeiro, especialmente na construção.
Produzindo aproximadamente 1.8 milhões de barris de petróleo por dia, Angola já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo em África e quinto maior exportador de diamantes do mundo.
Mas, enquanto o país conquista o reconhecimento internacional pela sua economia em rápida expansão, dois terços da sua população continua a viver com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.
O Centro de Estudos e Investigação Científica (conhecido pela sua sigla em português, CEIC) da Universidade Católica de Angola ter registado uma taxa de desemprego da ordem dos 25%, mas refere que mais de metade da população está dependente do sector informal para gerar rendimento e que, nas zonas rurais, a maioria da população continua dependente da agricultura de subsistência.
Não há empregos
A expansão do sector petrolífero em Angola trouxe milhões de dólares aos cofres do Estado, mas criou muito poucos postos de trabalho, e os milhares de projectos de construção em todo o país - sinal de que o país está em reconstrução depois de muitos anos de guerra - usam principalmente trabalhadores provenientes da China e de outros países asiáticos. Em resultado, poucos angolanos têm beneficiado destas oportunidades de trabalho.
Segundo Alcides Sakala, porta-voz do principal partido da oposição em Angola, a UNITA (União para a Independência Total de Angola), o fosso entre aqueles que têm e os que nada têm continua a aumentar. "O que vemos é que uma pequena minoria de pessoas fica mais rica enquanto que a maioria do povo está a ficar cada vez mais pobre," disse à IPS.

Alcides Sakala (foto Net)
O fosso entre ricos e pobres é evidente por todo o lado, especialmente em Luanda, onde mendigos deambulam perto dos apartamentos no centro da cidade com rendimentos que podem elevar-se a mais de 25.000 dólares por mês, e onde as vítimas de minas ajudam os motoristas a parar os seus Veículos Utilitários Desportivos (SUV) excessivamente grandes, na esperança de ganhar alguns tostões para comprar uma refeição no fim do dia.
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (IDH) - que mede a riqueza, educação e esperança de vida dos cidadãos - Angola mostra poucos sinais de melhoria, apesar da sua riqueza petrolífera.
O Índice começa no zero, que significa desenvolvimento humano nulo, e acaba no um, que significa pleno desenvolvimento humano.
Na última contagem, o IDH de Angola era 0.484, comparado com 0.670 na África do Sul, 0.664 no Botswana e uma média de 0,541 em todos os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Embora haja dinheiro suficiente no país para construir hospitais privados para aqueles que podem pagar as respectivas tarifas, a maioria dos angolanos tem dificuldade de ter acesso até mesmo a cuidados de saúde básica, com falta de pessoal qualificado e de infra-estruturas, especialmente nas zonas rurais.


E,apesar de as escolas privadas cobrarem propinas astronómicas para educar os filhos da elite, um terço das crianças do país está fora do sistema escolar. Muitas ficam em casa para trabalhar e ajudar as suas famílias.
Douglas Steinberg, director da organização Save The Children em Angola, explica: "Existe um enorme fosso entre os ricos e os pobres aqui, e muitas pessoas não estão realmente cientes da enorme riqueza de Angola. As pessoas que vivem nas zonas rurais ou nas zonas centrais do país não vêem as plataformas petrolíferas offshore, não sabem qual é a enorme quantidade de dinheiro existente nem vêem as novas construções nem os carros com preços exorbitantes nem os restaurantes caros."
"Penso que isto faz parte do problema - se as pessoas não sabem como o país é rico, é mais difícil exigirem responsabilidades do governo a nível de como este gasta o dinheiro," acrescentou.
No seu Relatório Económico para 2008, o CEIC apontou a contínua existência de pobreza, um contraste directo com a crescente riqueza do país.
"O PIB aumentou cinco vezes entre 2003 e 2008 - de 959 para 4961 dólares em 2008," refere o relatório. "Mas, apesar disso, a grande maioria da população continua a viver num estado de pobreza permanente, sendo obrigada a sobreviver com pouco mais de dois dólares por dia."
O fosso aumenta
A irmã Domingas Loureiro dirige uma instituição de caridade que ajuda famílias pobres no sobrelotado bairro do Cazenga, um labirinto de casas construidas pela população, sem electricidade e com acesso reduzido a água e saneamento.
"As pessoas aqui lutam para sobreviver, e muitas crianças são forçadas a trabalhar a partir de uma tenra idade. A realidade da vida e o elevado nível de pobreza nestes bairros não é uma situação que o governo conheça em profundidade," disse.
No entanto, o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, afirma conhecer a pobreza no seu país. Em Março, durante um discurso que proferiu ao lado do Papa Bento XVI, Eduardo dos Santos, há trinta anos no poder, reconheceu os "desafios tremendos" que o país enfrenta para reduzir a pobreza e o desemprego, e prometeu um investimento contínuo para resolver estes problemas.
Durante a visita da Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hilary Clinton, que esteve em Angola em Agosto, o ministro das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, foi solicitado por um repórter do Washington Post a explicar como é que o maior produtor de petróleo em África tinha uma pontuação tão baixa em termos do IDH.
O ministro respondeu dizendo: "Dêem-nos tempo para resolver este problema. Temos mecanismos, temos vontade e temos as estruturas para podermos garantir ao nosso povo que pode viver em condições dignas. Infelizmente, a pobreza não pode ser resolvida com uma varinha mágica."
Para os cerca de cinco milhões de angolanos que vivem nos bairros de lata de Luanda, uma varinha mágica pode parecer a sua única esperança.

A história da rainha Jinga



A história da rainha Jinga tirada dos livros de Fernão de Sousa
HISTORIA DA RAINHA JINGA MBANDI, D. ANA DE SOUSA.

Tendo morrido em princípios de 1617 o rei Mbandi a Ngola Quiluanji ou, melhor, Jinga a Mbandi a Ngola Quiluanji, como já ficou dito em nota no capítulo quarto, deixou ele um filho já homem, Ngola Mbandi, três filhas já mulheres, e um filho ainda creança. Era a este que pertencia reinar, mas não poude ser eleito por ser pequeno e por isso foi eleito o mais velho. Tratou Ngola Mbandi logo depois de ser rei, de fazer matar seu irmão, para ele nunca lhe poder tirar o logar; matou também muitas outras pessoas, que não aprovaram a sua eleição, e um seu sobrinho, filho de sua irmã mais velha, Jinga.

As suas três irmãs eram: a mais velha Jinga Mbandi, que foi mais tarde a famosa rainha Ana de Souza, a segunda chamava-se Punji, que depois de baptisada teve o nome de Engracia e a terceira chamava-se Mucambo, que depois de baptisada teve o nome de Barbara. Ngola Mbandi reinou até aos primeiros meses do governo do Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, que governou desde 10-8-1623 até 22-6-1624. Quando em 27-8-1617, o governador Luis Mendes de Vasconcelos chegou a Luanda, estava o rei Ngola Mbandi em paz connosco.
Este governador, pouco tempo depois da sua chegada a Luanda, tendo ali deixado o seu filho Francisco Luis de Vasconcelos, foi visitar os presídios ao interior e vendo que o de Ango, que Bento Banha Cardoso sendo governador (governou de 16-4-1611 até princípios de Outubro de 1615) tinha levantado, não estava em bom local, o desfez e foi levantar outro mais perto do Lucala, o qual ele denominou de Nossa Senhora da Assunção de Ambaca. Não se pôde hoje saber onde era o de Ango; parece que era pelo Lucala acima 7 ou 8 léguas, desviado de Massangano, na região que chamavam a liamba.
O novo presídio de Ambaca era em terras do rei Ngola Mbandi. Foi isto a causa de ser derramado muito sangue, tanto dos nossos como dos do rei. Este protestou contra a fundação do dito presídio, mas o governador não o atendeu. Veja-se a nota sobre isto no capítulo oitavo, da primeira parte, a qual vou aqui analisando.
Logo após a retirada do Governador, foi o presídio estreitamente cercado; porém os nossos soldados se defenderam com esforço, sofrendo muito por ser dificultoso de socorrer. O Rei foi vencido e queimados os Paços reais (!!) Depois disto invernaram ali por causa das muitas águas. Ora sendo as primeiras chuvas em Outubro e Novembro, não podia ter sido tudo o que fica dito em 1617; deve-se pois referir às chuvas de 1618.
A guerra ao soba Cassanji deve portanto ter sido feita em Maio ou Junho de 1618, e a seguir as muitas victórias e assalto à cidade do Rei (Ngola Mbandi), que fugiu sendo-lhe apanhadas sua mãe, suas mulheres e muitos escravos. O governador ainda em 1620 continou a guerra contra o rei e lhe cativou a sua principal mulher com outras pessoas de sangue real, que foram tratadas com muita cortezia e respeito; e não achando o nosso exército resistência em todo aquele Sertão, correu aquelas províncias deixando-as desertas de habitantes.
O rei retirou-se para as ilhas do Quanza e ahi ficou vivendo. O Jága Cassanji continuou ainda a guerrear o rei e apossou-se depois de algumas terras dele.
Tendo chegado em 12-10-1621 a Luanda o governador João Correia de Sousa, foi ele sabedor de tudo o que se tinha passado, e que a guerra ao rei fora injusta e que ele estava refugiado nas ilhas do Quanza.
Nesta altura há divergencia na história contada por Fernão de Sousa e o constante de outras fontes. Fernão de Sousa diz: (no I tomo fl. 326 ao fundo e no II, fl. 30) que João Correia de Sousa, logo após a sua chegada a Luanda, mandou ao rei o padre Dionísio Faria Barreto, pessoa categorisada, filho da terra que falava bem a língua d'ali, e com ele (um tal) Manuel Dias para o convencerem a sair das ilhas e a oferecerem-lhe a paz da parte do governador.

O rei aceitou a oferta com certas condições, sendo a principal que o presídio de Ambaca fosse retirado onde estava antes ou para o rio Luinha, porque, situado como estava em terras de Dongo, um dia de jornada da sua povoação e morada, não se poderia o rei conservar ali estando o presídio sobre ele; que o governador havia de desalojar de Dongo, o Jaga Cassanji, inimigo comum, o qual lhe fazia guerra; que lhe desse o governador os sobas e quixicos de sua obediência (escravos e prisioneiros de guerra) que lhe pertenciam e que Luiz Mendes de Vasconcelos lhe tinha tirado, pois não podia ser rei sem vassalos.
Veio a Luanda Manuel Dias a dar conta ao governador do que o rei queria e pedia, ficando com ele o padre Barreto. João Correia de Sousa fez junta formada do Vigário Geral, Religiosos, Camara e oficiais e todos foram concordes em que o presídio de Ambaca fosse retirado de lá e feito outro no Luinha. Foi cópia do assento da Junta levada pelo capitão Bento Rebelo ao rei para o padre Barreto lh'a ler na sua língua; ficou aquele muito contente, mas a mudança não se fez. Estavam as cousas neste pé quando em 2-5-1623 saiu João Correia de Sousa de Luanda.
Sabendo o rei da sua saída e que no seu logar ficara o capitão-mór, Pedro de Sousa Coelho, mandou a Luanda ao governador sua irmã mais velha, Jinga Mbandi, com uma embaixada a pedir o mesmo que já tinha sido pedido a João Correia de Sousa. Pedro Coelho fez nova Junta a qual concordou em que devia ser cumprido o que fora resolvido na primeira Junta e mais que o governador, capitão-mór, partisse a desalojar das terras de Dongo o Jaga Cassanji, que continuava a estar nelas, (Livros de Fernão de Sousa, tomo I, fl. 326 e II. fl. 30). Como se vê, Fernão de Sousa diz que Dona Ana veio a Luanda no tempo do governo de Pedro de Sousa Coelho e não fala em ela ter sido ali baptisada.

Luanda século XVII (imagem Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador)
Mas é certo que ela veio a Luanda em fins de 1621 ou princípios de 1622, sendo governador João Correia de Sousa, e ali foi baptisada tendo por padrinho o próprio Governador. Di-lo Cavazzi na pág. 496 e 497 e este autor neste ponto merece fé, pois viveu junto de D. Ana de Sousa, já depois de convertida, desde fim de Outubro de 1658 a meado de Junho de 1659 e depois desde Janeiro de 1662 até 17-12-1663, data em que ela morreu.
Ela própria na sua muito extensa carta de 13-12-1655, dirigida ao governador Luís Martins de Sousa Chichorro, fala acidentalmente de João Coreia de Sousa e lhe chama seu padrinho. Esta carta vai inteiramente copiada na grande nota sobre esta rainha, no capítulo décimo da primeira parte do II tomo do autor. Não posso explicar a omissão em Fernão de Sousa não contar que ela foi baptisada em Luanda em 1622 e dizer que ela veio em 1623. Viria ela duas vezes, sendo a primeira com Manuel Dias, e teria ficado em Luanda e a resposta do governador teria ido por Bento Rebelo, pó ela ter ficado em Luanda - e sendo a segunda ao governador Pedro Coelho? Talvez esta seja a melhor interpretação a dar aos factos.
É dito por Cavazzi que ela veio a Luanda com uma embaixada e é ele que conta o que se passou em Luanda na audiência, facto que constitui um lindo episódio, que os catálogos sem dúvida traduziram de lá. Não resisto a não o transcrever aqui, pois Cadornega não o conta. Eis o que os catálogos dizem:
GOVERNO DE JOÃO CORRÊA DE SOUZA
«Tomou posse João Corrêa de Souza, no anno de 1621, e logo no principio do seu Governo, teve huma memorável embaixada, digna de individual narração. Assim que Gola Bandi soube, ser chegado novo Governador, desejando reconciliar-se com os Portuguezes; e não ignorando o máo conceito, em que estes o tinhão, pela sua pérfida conducta; com notável sagacidade, nomeou para embaixatriz, a sua Irmã Ginga Bandi, em cuja viveza e desembaraço, pôz toda a esperança. Vivia aquella Senhora, separada do Irmão, a quem tinha mortal ódio, por lhe ter morto o filho; e elle que bem o sabia, querendo traze-la ao seu intento; mandou significar-lhe o grande arrependimento, que lhe causava aquelle arrebatado procedimento; e juntando affectuozas rogatívas e largas promessas; conseguio que ella se encarregasse da comissão Ginga Bandi, occultaado o rancôr que conservava no peito, até ter opportunidade de o manifestar; preparou-se com presteza, e seguida de huma comitiva numerosa, partio para a cidade de Loanda. Nella foi recebida, pelos Magistrados, e Pessoas principaes; e conduzida, por entre alas das tropas, e com descargas de mosquetaria, ás cazas de Rodrigo de Araújo, destinadas para seu apozento; onde foi á custa da Fazenda Real, com a decência e grandeza devida á sua pessôa.
No dia da audiência, com hum luzido acompanhamento de ambos os sexos, se dirigio á Caza do Governador; e sendo introduzida na sala, observando haver alli huma só cadeira, e defronte deia, duas almofadas de veludo franjadas de ouro, sobre huma rica alcatifa; sustendo-se algum tempo, sem proferir palavra, voltou o rosto para uma das suas escravas; foi esta immediatamente servir-lhe de banco e assentando-se sobre ella, assim esteve todo o tempo que durou a cerimonia.

(foto Net)
Este repentino accidente enchêo de admiração a todos; mas ainda maior foi o assombro, quando ouvirão fallar, e discorrer, huma mulher creada entre os bárbaros e feras, com tanta eloquência, e propriedade de termos, que parecia couza sobrenatural. Todo o seu discurso se encaminhou, a desculpar as inconstancias do Irmão; a persuadir, que Gola Bandi perseveraria na nova reconciliação que pretendia; e a expor as razoens, porque se lhe devia conceder a paz, que pedia.
Respondêo-lhe João Corrêa, que para maior firmeza da alliança, devia seu Irmão, reconhecer-se vassallo d'El Rey de Portugal, e pagar um tributo annual: a isto, com prompta vivacidade, replicou a embaixatriz; que semelhante encargo, só poderia impôr-se, a quem tivesse sido conquistado; e nunca a hum Príncipe Soberano, que procurava a amizade, de outro seu igual. Emfim concedida e ajustada a paz, sem mais condição, que restituir o dito Rey, os escravos fugidos; e huma reciproca assistência, contra os inimigos de ambas as coroas; se concluio esta notável função.
Ao despedir-se, hindo o Governador accompanha-la, reparou que a negra, que lhe servira de cadeira, não se movia da extravagante postura em que estava; e pedindo á embaixatriz, a mandasse levantar, respondêo-lhe ella rindo-se, que ficava alli a sua escrava, não por inadvertência, mas porque lhe não era licito, tornar a uzar de semelhante assento.
Adquirio Ginga Bandi, pela delicadeza e sublimidade de seu juízo, a geral estimação; e persuadido João Corrêa, que hum tão raro talento, poderia com facilidade, capacitar-se das verdades da Religião Catholica, lhe tocou algumas vezes nesse ponto; e observando que ella curiosa, ou abalada; queria conhecer os mistérios da nossa Santa Fé; a fêz instruir nelles por hábeis Eccleziasticos, e percebendo-os ella logo, com a sua natural clareza de engenho; tocada pela Mão de Deus, pedio o Baptismo; e aos 40 anos de idade, no anno de 1622 se lhe administrou o referido Sacramento, na Sé Cathedral, com grande solenidade, e concurso da Nobreza e povo; sendo Padrinho o Governador, e tomando ella o nome, de D. Anna de Souza.
Querendo passar á rezidencia de seu irmão, lhe mandou João de Souza, magníficos regalos e prezentes, e a despedio com as mesmas honras e obséquios, com que fora recebida: chegando a Matamba, dêo conta a Gola Bandi, do êxito da sua embaixada; fallou-lhe muito nas attençoens que devia aos Portuguezes; e participou-lhe que se achava Catholica, e quanto desejava, que elle seguisse o seu exemplo.
Alegre o Rey de Angola, com o bom resultado da missão, escrevêo logo agredecido, ao Governador, e expondo-lhe a vontade que tinha de imitar sua Irmã; lhe pedia hum sacerdote, para o catequizar e instruir.
Deferio João de Souza a sua supplica, remettendo-lhe promptamente o Padre Dionizio de Faria, homem preto, natural do mesmo reino de Matamba, de exemplar vida e costumes; mas não acertou na escolha; porque parecendo-lhe que agradaria a Gola Bandi, em lhe mandar hum compatriota, acontecéo o contrario: pois logo que o Rey vio o Clérigo, com desprezo e ignominia o fez lançar fora da sua presença; dizendo, não podia ser Baptismo, o que administrasse o filho de huma sua escrava; e tomando por affronta, a innocente desigualdade havida entre elle e sua Irmã; como furioso e louco, com vários desatinos provocou a sua ultima ruína.
Sentindo-se o Governador, mais do insulto feito ao sacerdote que da própria desattenção, perseguio aquelle bárbaro Rey, com tão dura e viva guerra, que destruído, aborrecido, e desamparado dos mesmos vassallos, foi refugiasse em huma pequena ilha do Coanza, onde vivendo em continuo susto, de ser entregue aos Portuguezes, veio a cahir nas garras da morte, tragando-a em hum veneno, que lhe fez propinar, sua Irmã D. Anna de Souza, em vingança de lhe ter morto o filho.
Quiz o Jaga Cassange aproveitar a occazião, em que os nossos andavão occupados, com as revoltas de Gola Bandi; e roubando os Pumbeiros, que estavão em seus estados, e aquelles que passavão por elles, para outras partes do Sertão, causou considerável prejuiso aos nossos negociantes, mas por ultimo, custou-lhe cara a ouzadia: impedindo-lhe primeiro, João Corrêa, a comunicação com a Quissâma, para não ser soccorrido, ordenou a Roque de São Miguel, fosse com o exercito, que acabava de desbaratar ao Angolense, tomar satisfação do atrevimento do Cassange; o qual pagou sua temeridade, com tal derrota; que bastarão os captivos que lhe fizérão, para resarcir em tresdobro o damno que havia cauzado.»
Até aqui o que dizem os catálogos; mas, como bem se vê, pelo que fica dito nesta nota, os catálogos erram dizendo:

1.º - Que o rei foi o primeiro a mandar a embaixada ao governador, quando a verdade é que foi João Correia de Sousa o primeiro a mandá-la.
2.º - Que o governador pediu ao rei um tributo anual;
3.º - Que o rei pediu ao governador um padre para o catequizar e instruir; e, que tendo-lhe o governador mandado o padre Dionísio de Faria, o rei o recebeu mal e o fez lançar fora da sua presença.
4.º - Que o governador por este motivo fez viva guerra ao rei.
Como se vê na nota, é isto tudo falso. Mas continuamos com a história de D. Ana, extratada dos livros de Fernão de Sousa. Fica dito atraz que a Junta reunida por Pedro de Sousa Coelho confirmou o que estava resolvido e deliberou mais que, o próprio governador, capitão-mór, fosse desalojar de Dongo o Jága Cassanji.
Antes da partida do governador chegou a Luanda o Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, que tomou conta do governo, em 10-8-1623, entregue pelo Coelho. Logo o rei mandou nova embaixada ao Bispo a pedir-lhe cumprisse o que estava assente pelos seus dois antecessores e juntamente lhe mandou os autos do que estava tratado.
O Bispo concordou e mandou o Coelho, já agora só capitão-mór, a fazer guerra ao Jaga Cassangi. Pedro Coelho não o fez como devia, pois tendo-lhe o rei mandado dizer que fosse ao longo do Lucala e não pelo meio de Dongo, para não destruir alguns poucos que se começaram a juntar naquele reino, ele não o quiz fazer e, por paixões com o Bispo sobre o governo, se recolheu a Ambaca, de que resultou perder-se a ocasião que fora de grande efeito (tomo I, fl. 326).
MORTE DE NGOLA MBANDI
Com este sucesso desconfiou o rei de tal modo e concebeu tais suspeitas, que se saiu o Padre Dionísio de Paria fugido e ficou só com ele Bento Rebelo e brevemente morreu de desgosto; e disse-se que de peçonha, que tomou, dada por sua irmã Ana, porque o rei queria assinar uma carta que tinha feito em que aceitava a paz, e deixou tudo o que possuía a sua irmã, e ao jága Caza o filho que tinha (que era pequeno) por lhe parecer que estava mais seguro com ele.
Tanto que a Jinga se empossou do governo, pediu ao jága o sobrinho e, por dadivas que fez, aquele lh'o entregou, e, tendo-o em seu poder, o matou, para ficar ela sempre no poder foi opinião geral dos seus que lhe comera o coração e lançara o seu corpo no Quanza.

O Bispo corria bem com a Jinga, mas sem feiras nem resgates. Neste estado encontrou Fernão de Sousa esta questão quando em 22-6-1624 tomou conta do governo. A Jinga escreveu-lhe a pedir-lhe que cumprisse o que lhe prometera João Correia de Sousa, e que ela sairia logo das ilhas em que estava e levantaria igrejas e mandaria pedir padres da Companhia (de Jesus) para se fazerem cristãos todos os seus vassalos e que abriria feiras correntes como d'antes.
Fernão de Sousa procurou por meio de Bento Rebelo, que estava com ela, que abrisse as feiras e que se passasse para a terra firme onde os reis costumavam estar, que era Avunga e Cabaça, e desse entrada aos padres da Companhia, certificando-a que por este meio alcançaria o que lhe convinha; que não podia mudar o presidio de Ambaca sem ordem régia e que ia escrever a D. Filipe; assim também não podia entregar-lhe os sobas e quizicos que Luís Mendes de Vasconcelos tinha tomado ao irmão.
Fernão de Sousa em carta de 28-9-1624 (tomo I. fl. 304, ao fundo) relatou tudo a D. Filipe e acabava por lhe dizer - «que, posto que estava assente por João Correia de Sousa, pela Camara e por outras pessoas e por Pedro de Sousa Coelho como governador, e pelo Bispo servindo de governador, por ser mais conforme ao que convém para a Real fazenda de V. Mg.de, não resolvi a faze-lo sem ordem de V. Mg.de por não vir no meu regimento, pelo que me fará  V. Mg.de mercê em mandar a que devo seguir nesta matéria, sobre o que tenho escrito a  V. Mg.de por outra via (tinha sido em 15-8-1624, tomo I, fl. 298, v.), porque não se mudando o presídio não haverá nunca feiras nem se continuará no cristianismo, que é o que   V. Mg.de mais encomenda».
Começaram então a fugir muitos escravos dos portuguezes para ela e ela aceitava os. O governador mandou-lh'os pedir e ela, depois de muitos recados e respostas por Bento Rebelo, que os levou, e de mais um tal Gaspar Teixeira e o língua da terra Domingos Vaz, respondeu que entregaria os escravos se lhe mandassem padres da Companhia e que se ela os não entregasse lhe podiam fazer guerra.
Foram os padres Jeronimo Vogado e Francisco Pacconio até Ambaca com ordem de não passarem adeante enquanto ela não entregasse os escravos. Ela não entregou nem um só escravo. Por essa razão saiu Bento Rebelo de junto dela (das ilhas) e os padres de Ambaca para Luanda.
O governador ainda tentou convence-la a que corresse connosco como devia, fazendo igrejas e abrindo feiras, certificando-a que só queria dela paz e comercio e bem do reino. Ela continuou revoltando os sobas nossos amigos e os quimbares (pretos forros de guerra que estavam subordinados aos presídios) contra nós.
PRIMEIRAS HOSTILIDADES DA JINGA
O soba Aiidi Quiluanji, parente mais chegado do Rei Ngola Mbandi, amigo nosso e muito confidente, quiz-se avassalar com outros sobas nesta ocasião e por ser inimigo dela, seu vizinho e fronteiro. Era o senhor do sitio das pedras de Maupungo, muito defensável para o que sucedesse; Fernão de Sousa admitiu-o e mandou-o ir a Ambaca para por ele saber dos desígnios da Jinga e que sobas estariam comnosco, para se prevenir contra o perigo que o ameaçava.
Pela ida de Aiidi a Ambaca declarou-se logo a Jinga inimiga dele e dos outros que tinha levado em sua companhia. Isto deve já ter sido em meados de 1625. A Jinga mandou-o guerrear e ele pediu socorro ao capitão de Ambaca, que lh'o mandou pelo capitão de infantaria, Estevão de Seixas Tigre. Por desordem deste em não ter observado o regimento que lhe fora dado pelo capitão de Ambaca, mataram-lhe 3 soldados e cativaram 6, que levaram á Jinga, que ela não quiz largar.
Sabendo isto, Fernão de Sousa fez Junta em Luanda e foi assente que se lhe devia dar guerra para castigo. O governador mandou o capitão-mór Bento Banha Cardoso (que já em Agosto de 1625 estava em Luanda) fazer a guerra e que antes fosse Sebastião Dias Tição fortificar Ambaca com ordem de recolher o capitão Tigre e os soldados cativos, se a Jinga os désse.
Ela não deu os soldados. Como ela tinha guerra em campo e se ia fazendo poderosa de gente, partiu em 7-2-1626 Bento Banha Cardoso para a conquista em companhia do sargento-mór António Bruto, de alguma gente a cavalo e dos padres António Machado e Francisco Pacconio, para verem se a reduziam pela pregação; foram pelo Quanza até Massangano. Dali se guio em 8 de Março o capitão-mór até ás terras do soba Quiluanji Ca Caçonda. Para lá mandou a Jinga os seus mucunjis com uma carta datada de 3-3-1626, na qual ela se mostrava humilde e se confessava vassala nossa e pedia desculpa da tomada que tinha feito ao Tigre, perto de Dongo. Assinava-se  Ana, Rainha de Dongo.
O Cardoso respondeu-lhe do mesmo local, em carta de 15-3-1626, convencendo-a a que desse licença aos quimbares que viessem aos seus senhores, (tomo I, f). 230-231). Não acedendo ela, foi o Cardoso atacá-la ás ilhas. Por carta de 30 de Junho avisou ele o governador que estava sobre as ilhas, das quais três eram de mais força; que tinha falta de mantimentos e muitas bexigas na gente preta e que começavam a dar nos brancos; que entre mortos e doentes seriam quatro mil.
A Jinga os atacou de noite, havendo mortes na gente preta e frechadas em brancos de que morreu um deles. António Bruto e Lopo Soares Laço, que também para ali tinha ido, foram cada um em sua lancha atacar a ilha de Mapolo, e, posto que houve resistência, foi entrada pelos nossos, havendo grande presa de gente e de alguns mantimentos, (tomo I, fl. 233). Por carta de 15-7-1626 Bento Banha Cardoso avisou que em 12 entrou na ilha em que estava a Jinga, mas ela tinha fugido para a outra banda da Tunda. (fl. 233, v.). Neste ataque ás ditas ilhas morreu de bexigas o soba Aiidi Quiluanji.
ELEIÇÃO DO PRIMEIRO REI DE DONGO, OU DE PUNGO-A-NDONGO, COMO DEPOIS FOI CONHECIDO.
Acabada esta guerra, retirou-se Bento Banha Cardoso para o soba Quiluanji Ca Caçonda, onde estava antes. Ali, sem ordem do governador, fez o capitão-mór eleger para rei de Dongo, em logar do rei Ngola Mbandi, o soba também nosso amigo, Ngola Aiidi, que era meio irmão do falecido Aiidi Quiluanji e era a quem pertencia o reino. A eleição foi em 12-10-1626, estando presentes os dois padres Jesuítas, António Machado e Francisco Pacconio, sabendo este bem a língua ali falada (o kimbundo).

O novo rei prometeu dar cada ano á Fazenda Real cem escravos, em sinal de vassalagem. Fez-se auto de tudo, tendo o capitão-mór (Bento Banha Cardoso) aprovado a eleição em nome de D. Filipe III. Aclamado o novo rei, foi ele viver com os ditos dois padres para as Pedras de Maupungo, que então começaram a ser a corte dele, e que por isso foi intitulada por nós Rei de Pungo-a-Ndongo.

Pungo-a-Ndongo, 1890 (foto Memórias de Angola, João Loureiuro)
Para efectivar a sua vassalagem pôz o governador em Ambaca o capitão-mór Cardoso e em Pungo-a-Ndongo o capitão Bento Rebelo Vilas Boas para com o padre Pacconio o advertirem das suas obrigações. O rei mandou a Luanda um seu filho fazer-se cristão e, em 31-5 (Domingo de S.m* Trindade) de 1627, o vigário geral, Bento Ferraz, o baptisou na igreja matriz com o nome de Francisco, sendo o governador padrinho.
O rei e a rainha foram baptisados em 29-6-1627 pelo padre Pacconio que pôz ao rei o nome de Filipe, em honra de D. Filipe III, sendo padrinho por procuração o governador, representado pelo capitão Bento Rebelo. Com ele se baptisou uma filha e uma irmã e logo se deu o primeiro pregão para o seu casamento com a rainha, (tomo I, fl. 338, ao fundo).
MORTE DE BENTO BANHA CARDOSO E SUA SUBSTITUIÇÃO POR PAIO DE ARAÚJO DE AZEVEDO.
A Jinga foi-se refazendo das perdas que tivera e, ligando-se ao jága Caza, veio atacar o novo rei. Pela obrigação que tínhamos de o defender se assentou que a essa defeza fosse Bento Banha Cardoso, o qual estava em Ambaca e tendo adoecido quiz vir curar-se a Luanda; saiu pois de Ambaca em companhia do padre Francisco Velho da Silva; chegando ao Lembo quiz descançar no arimo de Pêro de Carvalhaes Dantas e, carregando a doença, morreu no dito arimo em 8-8-1628; foi levado a Massangano e ali o enterraram com a decência que convinha. Ele tinha deixado no seu logar o sargento-mór António Bruto.

Fernão de Sousa nomeou para o dito logar Paio de Araújo de Azevedo, de que lhe deu provisão em 23-8-1628 (tomo I, fl. 253 ao alto e tomo II, fl. 129) e saiu de Luanda em 9-9-1628, indo pelo Quanza para Massangano. (tomo I, fl. 253, v.). Parece que houve demora em atacar a Jinga, pois só em 25-5-1629 é que Paio de Azevedo a foi atacar ao Quilombo, tendo ela fugido. O capitão de infantaria, Diogo de Carvalho, com a sua companhia, e António Dias Muzungo, tandala, capitão preto, com a sua guerra preta, por ordem do capitão-mór, a seguiram, sem a poderem alcançar; mas no mesmo dia tomaram Cambo e Quifunji, suas irmãs, e todos os sobas e os macotas que ela tinha consigo, conseguindo ela fugir também desta vez.
Com esta presa se recolheu o capitão-mór e o tandala por ser já noite. Em 26 juntou o capitão-mór a sua gente e foi em seguimento dela. Em 27 foi sitia-la onde ela estava alojada, que era a Quina Grande dos Ganguelas. No dia 28 foi atacada, mas ela se lançou abaixo por cordas e paus.
Era tal a altura que debaixo ao cume não se ouvia falar ninguém, senão de noite. Em 29 seguiram-na, mas não a puderam apanhar, tendo ela ido para os Songos, que eram antropófagos. (Tomo I, fl. 258, e 350 n." ao fundo). O capitão-mór mandou para Luanda, entregues ao capitão da guarda, Domingos Lopes de Sequeira, as duas irmãs da Jinga, uma sua tia chamada Quiloji e onze pessoas entre sobas e macotas. Em Luanda, aonde chegaram em 20-7-1629, foram recebidas com grande aparato pelo governador, que as entregou a D. Ana da Silva, mulher do capitão-mór.

Este entrou em Luanda em 8-11 do mesmo ano. (fl. 260 a 263, v, ao fundo). Passado isto confederou-se a Jinga com o jága Cassangi, inimigo nosso e muito poderoso, que trazia 80 mil arcos de guerra em campo e, depois de estar com ele, este a mandou com guerra sua meter nas ilhas, com que se levantaram novos movimentos e fez repreza nos nossos.
Neste tempo já D. Manuel Pereira Coutinho estava em Luanda, tendo tomado conta do governo em 4-9-1630. O que ela agora pretendia era ser aceite como rainha de Dongo ou então uma das suas Irmãs. (Relaçfio de 2-3-1632, no tomo II. fl. 30 e seg.). Dos livros de Fernão de Sousa nada mais se pôde saber, pois nada relatam d'aqui para deante. Por este extrato do muito que em varias cartas Fernão de Sousa diz para D. Filipe III, se conclui que os culpados da rainha Jinga nos ter hostilisado durante vinte e oito anos, cometendo e deixando ou fazendo cometer os maiores crimes, foi primeiramente Luís Mendes de Vasconcelos pela guerra injusta e grandes roubos que fez a Ngola Mbandi; os outros governadores tiveram grande culpa, mas especialmente Fernão de Sousa a teve, por causa do seu excessivo escrúpulo em não sair fora do seu regimento, podendo sair legalmente fora dele, pois os autos das Juntas o defendiam plenamente.
A Jinga assistia-lhe o direito e a justiça e tudo isto foi calcado. A precipitação de Bento Banha Cardoso em querer eleger rei foi a causa das primeiras hostilidades dela, que dahi por diante se lançou abertamente no caminho da grande inimisade contra nós, que se exacerbou no tempo da ocupação holandesa, época em que, unida com eles, se ia perdendo Angola de todo.
Em 19-10-1641, o Conselho Ultramarino censurou o procedimento de Fernão de Sousa em ter tirado a realeza á Jinga. Veja-se a nota no fim do capitulo 5.* da 2.ª parte deste tomo. Pelo que fica dito se vê que Pungo-a-Ndongo, não tinha importância antes de para lá ir viver o novo rei que se chamou Filipe. A residência dos reis era Cabaça, que distava duas léguas de Pungo-a-Ndongo, e Avunga que não se sabe onde era. Também se vê bem que a rainha D. Ana de Sousa nunca lá esteve e que portanto não fugiu d'ali, obrigada por quemquer que fosse. Ao viajante que vai a Pungo-a-Ndongo é-lhe mostrada uma curiosa pegada que dizem, ser da rainha Jinga. É uma lenda sem fundamento algum.
ETIMOLOGIA DO NOME PUNGO-A-NDONGO
Pungo-a-Ndongo, antes de para lá ir morar o rei Filipe, tinha o nome de Matadi Maupungo (Matadi ma upungu), que quere dizer Pedras Altas.
Fernão de Sousa chama-lhe Pedras do Maupungo; Cavazzi Pedras de Maopungo, Upungu significava altura; esta palavra desapareceu ficando só no nome de Pungo-a-Ndongo.
No Congo: Mpungu é altura.
Era portanto: Matadi ma upungo.
Pedras de altura.
Pedras Altas.
Esta maneira de formar adjectivos é ainda hoje usada.
Assim, em Ambaca: Matadi ma unene.
Pedras de grandesa, Pedras grandes.
Como se vê: o ma não fazia uma palavra com upungo era o genitivo de matadí.
Em 1680 Cadornega diz só: Pedras do Mapungo; já tinha caido o u de upungo.
A queda do prefixo u das palavras que o têm no singular, quando formam o seu plural, dá-se em muitas.
Assim, ainda hoje em Ambaca:
Makembu, enfeites, por maukambu;
Mahaixi,
doenças, por mahuaxi;
Mata,
espingardas, por mautas, e outras muitas.
Fonte: História da Raínha Jinga Mbandi, D. Ana de Sousa, está descrita no livro História Geral das Guerras Angolanas, 1680, António de Oliveira de Cardonega, Tomo I, Agência Geral do Ultramar, Lisboa 1972, páginas 154 a 167.

A CIDADE DE LUANDA



Joost De Raeymaeker
www.oficinalivro.pt

A
CIDADE DE LUANDA

 
Sugerimos vivamente a quem quizer visitar Angola adquirir este excelente livro. Dado o seu conteúdo um pouco "polémico" certamente não será vendido facilmente em Luanda. Por isso solicitamos a compreensão e tolerãncia da editora e do editor pela publicação deste texto. Obrigado.

O Povo
Voltando às generalizações, há algumas caraterísticas gerais entre os angolanos que tornam a estada e as viagens pelo país bastante agradáveis. As pessoas têm habitualmente um fantástico sentido de humor e uma gargalhada nunca está longe. É muito refrescante encontrar um povo que sabe brincar com a sua própria situação. Essa relativização ajuda a ultrapassar as dificuldades do dia a dia e é um sinal de inteligência. O humor está presente em tudo à nossa volta, das conversas nos botequins às letras das músicas. Outra caraterística muito positiva dos angolanos é a hospitalidade. Ser convidado para casa de alguém acontece com muita facilidade. Daí a essa pessoa nos levar a casa de outra, e por sua vez outra e outra, é a coisa mais normal. Ninguém fica admirado por alguém aparecer com um estranho para o almoço, há sempre um prato a mais para qualquer eventualidade.
 
Como a maior parte dos africanos, os angolanos respeitam muito os mais velhos. Qualquer falta de respeito para com uma pessoa mais velha é muito mal vista. Geralmente são carinhosamente chamados de tio, tia, kota, mais velho, mais velha, avô ou avó. Existe uma hierarquia etária implícita nos contactos sociais. As crianças estão no degrau mais baixo e, à primeira vista, ninguém lhes parece ligar muito. Não costumam fazer patifarias nem falar muito quando estão acompanhadas por adultos. É perfeitamente normal ver uma criança sentada ao lado ou ao colo de sua mãe ou completamente sozinha, num transporte público qualquer durante uma viagem de muitas horas, sem se irritar e até sem falar. Não quer dizer que elas sejam acanhadas ou reprimidas. Basta reparar nessa mesma criança alguns minutos depois com os seus amigos na rua para a ver brincar, com um brilho nos olhos e às gargalhadas. Mas como são as pessoas que vamos encontrar em Angola, depois de sair do Aeroporto 4 de Fevereiro? Nos próximos parágrafos, segue uma curta descrição de alguns tipos de angolanos que encontrará de certeza.
 
O motorista de candongueiro
É fácil detetar esta personagem em qualquer parte de Angola. As carrinhas Toyota Hiace, pintadas de azul e branco, são omnipresentes. O motorista de candongueiro tem uma expressão facial praticamente imutável face a qualquer acontecimento. O stress do trânsito horrível de Luanda e os buracos do tamanho de um carro em algumas estradas na província não lhe afetam minimamente a calma. As regras de trânsito são para os outros, e não é em vão que se diz em Angola que só bate num candongueiro quem quer. Eles é que não param. É a nós que compete decidir se queremos amolgar o carro ou ser atropelados. A maior parte dos motoristas de candongueiro gosta de pôr a música muito alto. Geralmente só baixam o som para atenderem uma chamada, para se rirem de uma história de um passageiro ou para darem ou receberem instruções do cobrador.


(foto Net)
 
O cobrador de candongueiro
É a figura que grita o nome do destino do candongueiro em alta voz. «Congolenses praça, Congolenses praça», «Mutamba, Mutamba» ou «aeroporto, aeroporto» devem ser palavras que continuam a sair da boca desses indivíduos, mesmo durante o sono. Normalmente têm um maço de notas, bem ordenadas por valor, dobrado a meio ao longo da nota, entre o indicador e o anelar, passando por baixo do dedo do meio. Estas figuras estão habituadas a ficar em posições de fazer inveja a muitos contorcionistas entre a porta, as imbambas e os joelhos dos passageiros. São geralmente muito bem-dispostos e enérgicos, mas a boa disposição pode muito rapidamente dar lugar a ameaças e gritos se um passageiro se recusa a pagar ou não tem dinheiro. Felizmente, a má disposição nunca dura muito tempo. Instantes depois, o cobrador já está a rir-se ou a contar uma história qualquer (desde que o volume de som o permita). Geralmente também não é boa ideia chamar um candongueiro por esse nome. Nem o motorista nem o cobrador gostam. Preferem a palavra «táxi», mas pode dizer Hiace.
 

(foto Net)
A zungueira ou quitandeira
É a mulher que anda pelas ruas com um cesto na cabeça e geralmente com uma criança às costas, envolta num pano. O tamanho e o peso do cesto desafiam as leis da física e da resistência humana. As mulheres vendem peixe, fruta, livros, jornais, bolachas, resumidamente tudo que se pode vender e transportar num cesto. As zungueiras ambulantes gritam o nome daquilo que vendem. «É peixe, é peixe, é peixe» é um dos gritos muito ouvidos. Frequentemente as vogais são transformadas em «é» por permitir um som um pouco mais estridente. «Quérépéé» é carapau. O grito é outro, o peixe é o mesmo. Muitas também estão sentadas à entrada dos supermercados, ou em certos pontos da cidade, como nas arcadas da Marginal de Luanda. Zungar é um verbo. «A mana Zita zunga ginguba» quer dizer que a Zita vende amendoim.
 
O roboteiro
Os roboteiros não gostam do nome com que ficaram. Dizem preferir «trabalhador». Para um estranho, nenhum dos dois explica o que possam ser na realidade. São as personagens que ficam ao pé das paragens dos transportes com uns carros de mão artesanais, feitos com uma roda e um pneu de um carro, sobre os quais montam uma estrutura de madeira. Por umas dezenas de kwanzas transportam as nossas imbambas para casa ou para o próximo transporte.
 
O pastor da igreja carismática
No rasto da altamente lucrativa Igreja Universal do Reino de Deus, vulgo Igreja Universal, surge um sem fim de igrejas «carismáticas» brasileiras, um pouco por todo o país. Até uma imitação da Igreja da Cientologia vi no meio do Moxico, irrepreensivelmente chamada Igreja de Cristo Cientista. Os pastores dessas igrejas são muitas vezes angolanos, mas por uma razão que me ultrapassa, dirigem o rebanho com um portentoso sotaque brasileiro. É comum ouvi-los até do outro lado da rua a debitar a ladainha sobre o inferno.


(foto Net)
 
O vendedor ambulante
É o jovem que vende tudo e mais alguma coisa no meio das filas de trânsito da cidade ou em qualquer lugar onde os carros não conseguem andar com mais velocidade do que uma bicicleta. O vendedor ambulante resiste a tudo: chuvas torrenciais, sol abrasador e, provavelmente, o pior de tudo: gases de escape durante a maior parte do dia. Alguns vendem «sumos e água descartáveis» e cerveja, em enormes sacos de plástico transparente, cheios de pedras gigantescas de gelo. Ganham umas poucas dezenas de kwanzas por cada bebida vendida, e por isso é raro vê-los a beberem aquilo que vendem, mesmo nos dias mais quentes. Outros vendem todos os artigos imaginários, desde pentes e carregadores de telemóveis até quadros da Mona Lisa e armários inteiros. Pode não conseguir encontrar aquilo de que está à procura num determinado dia, mas seja qual for a sua necessidade, há de aparecer à venda nas ruas das cidades angolanas.
 
O novo-rico
Se lhe aparecer um carro que nunca viu em lado nenhum por ser demasiado caro, pode ter a certeza de que lá dentro vai um novo-rico. Fatos Armani, com colete, gravata, blazer e pochette, no calor tropical sufocante? Um novo-rico. Caixas de champanhe Veuve Ciiquot para o pequeno-almoço, ou pensando melhor, a qualquer hora do dia? Novo-rico. Este espécime gosta de dar nas vistas, de mostrar a «banga». O modo como ficou rico pode não ser o mais correto ou legal e a sua conduta pública às vezes irritante e desrespeitadora dos outros, mas é sempre bom ter alguns novos-ricos como amigos, nem que seja para aproveitar uma ou outra garrafa de champanhe ou um almoço daqueles de que nunca mais nos esquecemos.
 
O pato
Nos casamentos e nas festas, há sempre algumas pessoas não convidadas. Como é normal os padrinhos do casamento terem também direito a convidar um certo número de pessoas, é relativamente fácil passar-se por convidado. Basta ter lábia. Nas festas mais informais, é ainda mais simples, porque toda a gente tem o hábito de levar sempre mais pessoas. Apesar de um pouco incómodo, o pato é uma figura imprescindível em muitas festas enfadonhas. Os patos são os que dão mais espetáculo. Animam mais um casamento do que qualquer um dos convidados. Quando todos estiverem cansados ou sem vontade de dançar, é o pato que anima a pista de dança.
 
O polícia
Mais cedo ou mais tarde, será confrontado com a polícia angolana. Como turista, os momentos em que é mais provável ser-se confrontado com a polícia é no trânsito, se cometer alguma infração (real ou não), numa operação stop, ou se estiver a fotografar. É provável que lhe peça uma «gasosa» ou, mais recentemente, um «saldo» (um carregamento do telemóvel, que custa 900 kwanzas). Geralmente é mais barato e cómodo pagar a «gasosa» ou o «saldo» do que a multa. Pode sempre insistir na sua razão, mas o tempo que vai perder e a energia que vai gastar podem não valer a pena.
 
O louco
Não se espante se de repente vir um indivíduo todo nu a atravessar uma praça qualquer, a falar consigo mesmo ou a exclamar frases incoerentes, sem que ninguém lhe ligue. Trata-se daquilo que se chama «os loucos» em Angola. São pessoas desenquadradas, geralmente sem abrigo, que vivem à margem da sociedade. As outras pessoas não se metem com os loucos e mantêm distância.
 
O lavador/arrumador/ guardador de carros
Ao estacionar, é normal que alguém o ajude e depois se proponha lavar e guardar o carro. A lavagem é relativamente barata, mas convém estabelecer o preço antes de concordar. Com a quantidade de poeira no ar, sobretudo no cacimbo, uma lavagem superficial pode ser muito útil. No que toca a guardar o carro, estes indivíduos não são tão eficazes e estão longe de ser uma garantia de não acontecer nada ao veículo.
Não há uma só Luanda, mas uma série de realidades diferentes dentro e fora da capital angolana. Há, por exemplo, a Luanda antiga: o centro colonial, com edifícios que datam, como os sobrados, de há dois séculos. Em grande parte da cidade, os reclamos luminosos do tempo dos portugueses ainda estão presentes. Deixaram de ser muito luminosos. Circular a pé nas ruas do centro antigo é um constante ziguezague por causa de passeios interrompidos e aparelhos de ar condicionado a pingar para a rua.


A imagem das ruas é marcada pela confusão no trânsito de candongueiros, Hiaces e táxis. Ainda dentro da Luanda antiga, surgiu recentemente uma série de edifícios modernos, arranha-céus e torres como a Torre do Ambiente. Neste momento, está em construção uma «nova» marginal, vários hotéis de luxo e sedes de empresas. Luanda foi considerada a cidade mais cara do mundo para expatriados pela segunda vez em 2011, mas apesar disso é possível estar em Luanda sem gastar rios de dinheiro.
A famosa baía de Luanda está a ser diminuída, e haverá mais faixas de rodagem na marginal antiga e a ampliação da ilha de Luanda. A diversão antiga na ilha está prestes a desaparecer, como já desapareceram as barracas no ponto final. Tudo será posteriormente concentrado numa outra zona da ilha.
Há quase sempre um trânsito infernal para entrar e sair da cidade, às vezes em momentos inexplicáveis, por controlo policial, um ou outro acidente, ou o presidente que vai a passar. A sul da parte antiga de Luanda, há uma nova área chamada Luanda Sul ou Talatona, com condomínios fechados, um centro comercial e casas caríssimas, mas na maior parte dos casos ainda sem ligação à rede elétrica e sem água ou esgotos. O centro comercial Belas Shopping tem várias salas de cinema. Aconselho vivamente assistir a um filme, porque ir ao cinema é sempre uma aventura, também pelos comentários das pessoas. Como qualquer centro comercial, há imensas lojas e restaurantes e também um supermercado.
Um novo centro comercial vai abrir na zona de Alvalade, numas torres novas. Terá o nome Mega. Também o Aeroporto 4 de Fevereiro será deslocado para longe da cidade dentro de poucos anos.
Em Luanda, as faltas de luz e água são perfeitamente normais e podem demorar alguns dias para serem resolvidas. Elevadores são por um lado uma coisa do passado e por outro uma coisa recente. Pelo menos os que funcionam. Muitos prédios têm um sistema com cartões para os condóminos que pagaram. Os outros que subam a pé.
A maior parte dos bairros na cidade e na periferia tem muitos musseques, bairros com construção mais frágil e descontrolada. Lá a vida é completamente diferente da vida na baixa ou nos condomínios.
 
Deslocar-se em Luanda
Há uma rede extensa de candongueiros, que vão basicamente para todo o lado. Veja a secção sobre transportes públicos para saber tudo sobre andar de candongueiro. O preço normal é 100 kwanzas, mas durante as horas de ponta pode ser necessário pagar 200 kwanzas. Nas paragens, o cobrador grita repetidamente o destino, tornando-se relativamente fácil apanhar o candongueiro certo. Para além dos candongueiros, há carros pequenos, os chamados turismos, que fazem percursos praticamente idênticos pelo mesmo preço. Se preferir conduzir em Luanda, tenha cuidado e tome em consideração as três principais regras de trânsito.
 
Luandense:
1-0 veículo maior tem sempre razão; 2 - Circule o mais à esquerda possível; 3 - A prioridade é sempre de quem chega primeiro ou com mais velocidade.
 
O que ver e fazer
Para efeitos práticos, dividimos esta secção em quatro partes: Centro (Baixa / Miramar / Cidade Alta), Ilha, Mussulo, Luanda Sul / Talatona.

A mulher mais poderosa de Portugal é angolana


A mulher mais poderosa de Portugal é angolana


Pedro Santos Guerreiro
psg@negocios.pt
Portugal tem muitas mulheres importantes, algumas são ricas, poucas são poderosas. Uma é as três coisas. Tem 36 anos e não é portuguesa. É a angolana Isabel dos Santos.
Portugal tem muitas mulheres importantes, algumas são ricas, poucas são poderosas. Uma é as três coisas. Tem 36 anos e não é portuguesa. É a angolana Isabel dos Santos.

Dizem que detesta ser tratada como "a filha de José Eduardo dos Santos". Pela maneira como está a afirmar-se em Portugal, um dia trataremos o Presidente de Angola como "o pai de Isabel dos Santos". É a nova accionista da Zon. E de muitas outras empresas. Uma atrás da outra, todas lhe estendem tapetes. Tapetes verdes, da cor do dinheiro.

A mulher mais rica de Portugal, segundo a "Exame", é Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo Silva, com uma fortuna de 731 milhões de euros. Não tem metade do poder de Isabel dos Santos. E tem apenas uma fracção do seu dinheiro: só na Galp, BPI, Zon e BESA, a empresária angolana tem quase dois mil milhões de euros. Fora o resto.

A lista dos dez mais ricos de Portugal está aliás cheia de pessoas que fazem negócios com a família dos Santos. Américo Amorim é sócio de Isabel na Galp e no Banco BIC. Belmiro de Azevedo, segundo foi noticiado, quer ser parceiro de distribuição em Angola. O Grupo Espírito Santo tem interesses imobiliários, nos diamantes, na banca. Salvador Caetano tem concessões. O Coronel Luís Silva acaba de fechar negócio para vender acções da Zon a Isabel dos Santos. Zon onde João Pereira Coutinho e Joe Berardo são accionistas.

Da lista dos mais ricos, só a família Mello e Soares dos Santos estão "fora" da geografia. O "dinheiro dos angolanos" pesa sobre muitas consciências. Soares dos Santos foi o único a assumir publicamente o desdém pelos níveis de corrupção de Angola.

Isabel dos Santos é accionista da Zon e sócia da PT. É accionista do BPI e sócia do BES. É accionista da Galp e a Sonangol é parceira da EDP. A empresária garante que não tem relações com as actividades do seu pai e da estatal Sonangol. Identificando todos os interesses em causa, as relações de sociedades portuguesas alargam-se ainda à Caixa, Totta, BPN e Mota-Engil. Dá um índice bolsista.

O que faz com que tantas empresas portuguesas implorem para fazer negócios com Isabel dos Santos? E que Isabel "jogue" em equipas rivais, concorrentes confessos em Portugal, sem um pestanejo? Só uma coisa consegue tanto unanimismo: o dinheiro. A liquidez angolana, que desapareceu de Portugal. A contrapartida de acesso ao crescente mercado angolano. Os portugueses não abrem os braços a Isabel dos Santos, abrem-lhe as carteiras - estão vazias.

O casamento entre angolanos e portugueses tem as prioridades do das famílias feudais: o interesse está primeiro, o amor virá depois, se vier. E o interesse é recíproco: os angolanos são entronizados em Portugal e na Europa; os portugueses são-no em Angola e em África. Não há equívocos, há dinheiro.

Os últimos dois grandes negócios de Isabel dos Santos em Portugal, no BPI em 2008 e na Zon em 2009, tiveram uma curiosidade cabalística: ambos foram fechados na terceira semana de Dezembro, ambos de 10%, ambos por 164 milhões. Na Zon, pagou um prémio de 26% sobre a cotação. Comprou caro? Comprou mais barato que os accionistas que estão na empresa. Comprou bem.

Isabel e José Eduardo construíram um poder tão ramificado em empresas portuguesas que só o Estado e Grupo Espírito Santo os ultrapassarão. Tanta concentração de poder é mais ameaçadora do que uma nacionalidade. Em Portugal, Isabel e José Eduardo não são Santos da casa mas fazem milagres.

DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA


"Se eu sair à rua de noite tenho medo de me dirigir a um polícia"

DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA
Enquanto os governantes falam de bom ambiente para o negócio, sucedem-se os relatórios de ONG que alertam para o desrespeito dos direitos humanos


(Foto Público)

NUNO SÁ LOURENÇO (texto)
MIGUEL MADEIRA (fotos)
Em Luanda
"Estabilidade política e social." A expressão tem sido repetida pelos responsáveis angolanos, ao longo da visita oficial de José Sócrates, como garantia de segurança para o investimento português no país. O ministro adjunto do primeiro-ministro de Angola, Aguinaldo Jaime, insistiu mesmo nessa ideia durante o dia de ontem. No entanto, e apesar dos progressos conseguidos ao nível dos direitos humanos com o fim da guerra civil, a sociedade civil continua a sofrer e a denunciar atropelos aos direitos do cidadão e de inteiras comunidades. O relacionamento da população com a polícia, o sistema de justiça e as prisões revelam o estado da situação.
O PÚBLICO foi ao encontro de algumas das pessoas que nos últimos tempos têm assumido um papel em Angola na defesa destes direitos. António Ventura é director executivo da Associação Justiça Paz e Democracia (AJPD), responsável pela elaboração do relatório de direitos humanos Um olhar sobre o sistema penal angolano, Agosto de 20001 Outubro de 2004, tornado público em Dezembro de 2005. "O sistema judiciário é muito lento e muito antigo. Os tribunais levam muito tempo a tomar uma decisão, forçando os reclusos a esperar durante anos", afirma António Ventura.
Os problemas do sistema de justiça angolano devem-sé à falta de meios, de recursos, decorrentes do próprio desinteresse do poder político. Quem o afirma é Lúcia Silveira, que tem avançado com algumas propostas de reforma penal. Esta activista lembra que o Código Penal é o mesmo desde 1886. António Ventura dá um exemplo da sua limitação. "Os crimes de violência contra a mulher não estão previstos no código." O relacionamento da população com a polícia, alvo de uma política de modernização, também não é o melhor.
"Se eu sair à rua de noite tenho medo de me dirigir a um polícia", assegura Lúcia Silveira. "Eu já presenciei um polícia que flagrou uma criança a roubar um pisca de um veículo, algemou-a e pendurou-a num gradeamento da rua, à espera que a carrinha da polícia passasse.
Os problemas estendem-se às condições carcerárias existentes. Lúcia Silveira dá como exemplo a Cadeia Central de Luanda: "Tem capacidade para 500 pessoas e actualmente estão lá cerca de 2000. A cadeia serve para ensinar o crime. É o que acontece se eu deixo lá ficar uma criança de 14 anos durante quatro anos, por ter roubado um telemóvel. "António Ventura esteve no Malange, esta semana. "Deixam os reclusos nas celas transitórias, onde não deviam permanecer mais de 48 horas, mais de duas semanas. "O activista acrescenta que há pessoas presas nessa região, desde 2003, só porque não há condições para se realizar o seu julgamento: "Para toda essa província há um juiz." •
O público viaja em avião fretado pelo governo
EXEMPLOS DE ATENTADOS AOS DIREITOS HUMANOS
Os despejos e a violência-policial

Os despejos e a violência policial têm sido os temas mais candentes nas últimas semanas. António Ventura afirma que a polícia "está a ser usada para fins políticos". A polícia tem forçado o abandono à força de musseques, para a sua posterior demolição, sem que o Governo explique os motivos dessas operações. "Supõe-se que por trás estão sempre altos funcionários das Forças Armadas e da polícia", afirma António Ventura. De acordo com os relatos, os despejos "são feitos sem a observância das normas e sem qualquer notificação prévia ou indemnização dos proprietários". Perante resistência, a polícia não hesita em recorrer à violência.

 
Presidente da Comissão Eleitoral contestado
A AJPD levantou dúvidas sobre a nomeação do juiz Caetano de Sousa pára presidente da Comissão Nacional Eleitoral, invocando a incompatibilidade constitucional da acumulação desse cargo com o seu posto como vice-presidente do Tribunal Supremo. "Ele analisa na comissão e remete para o Supremo, onde ele tem assento", denuncia António Ventura que questiona mesmo a imparcialidade deste juiz. Considera-o "muito próximo" do poder político.
Seropositivos estigmatizados

As ONG angolanas têm alertado para os problemas sentidos pelos seropositivos. Relatam situações de recusa de tratamento em alguns hospitais do país. Há funcionários hospitalares ainda com receio de serem contaminados. Existe um único hospital no país capacitado para o tratamento de seropositivos, obrigando os doentes a longas deslocações e a custos que muitas vezes não podem suportar.
Manifestações proibidas
O atropelo dos direitos humanos reflecte-se mesmo na liberdade de reunião, manifestação e acesso à informação. "Todas as manifestações que a sociedade civil pretenda realizar para reivindicar uma determinada situação, desde que não seja do interesse do poder são impedidas ou repelidas, usando mesmo armas de fogo ou cães", denuncia António Ventura. Os governos provinciais entendem habitualmente que têm o direito de autorização de manifestação, quando a lei apenas implica a notificação das autoridades.

"Kuando-Kubango é uma Província abandonada e politicamente carece de debates"


"Kuando-Kubango é uma Província abandonada e politicamente carece de debates"
O Economista Filomeno Vieira Lopes considerou em entrevista ao AngoNotícias, no Menongue, que o Kuando-Kubango é uma Província praticamente abandonada devido a falta de atenção por parte do governo central na solução dos problemas básicos das populações. "Há projectos que se deveriam desenvolver e que estão consignados no Orçamento Geral do Estado sob responsabilidade do governo central, nomeadamente os projectos ligados a energia e águas e também a reabilitação de estradas, mas que o governo central não os realiza".
Vieira Lopes que é igualmente o Secretário para Assuntos Parlamentares e Cívicos da Frente para Democracia reconhece, a existência de problemas de intolerância politica mas, encoraja o debate abrangente para esclarecer aqueles que continuam duvidosos quanto à democracia. "Nós vemos que um dirigente da UNITA que tenha que sair de Menongue para um município precisa de levar uma guia de marcha, isto é um perfeito absurdo do ponto de vista da democracia, da liberdade política, isso não faz sentido absolutamente nenhum e mostra que há uma reserva em termos de uma verdadeira reconciliação nacional".
AngoNoticias: Qual é o nível de crescimento da nossa economia?
Filomeno Vieira Lopes: A economia de Angola tem tido grandes níveis de crescimento, até ao final deste ano está previsto um crescimento de 6% e até 2006 o crescimento poderá atingir os 21%. Naturalmente que grande parte deste crescimento deve-se ao crescimento petrolífero. Angola não vai poder registar crescimento noutros sectores de economia, portanto vamos continuar um pais de monopólio do sector dos petróleos.
AngoNoticias: Apesar deste crescimento tem se dito varias vezes que a luta contra a pobreza está longe de alcançar o nível desejado. Como é se explica este fenómeno?
FVL: Isto explica-se pelo facto de a riqueza de Angola, sobretudo o crescimento da sua economia estar no sector petrolífero, um sector que em si mesmo não é um sector gerador de empregos. Poderia efectivamente se o que se consegue no sector petrolífero pudesse servir para financiar o resto da economia nomeadamente no sector da agricultura e outros ramos de indústria e serviços. Talvez isso pudesse ter efeitos positivos no sentido de diversificar a proporia economia. O que é facto é que estando muito dinheiro concentrado, sobretudo no Governo, um governo que ainda não tem vontade politica para satisfazer as necessidade básicas das populações, acaba por transformar esta boa riqueza em pobreza. Acontece neste caso, que as pessoas do Governo ligadas ao sector acabam por ter níveis de riqueza muito acentuados, enquanto os níveis de pobreza aumentam no país. Isto significa que quanto mais cresce a própria economia aumenta o fosso entre ricos e pobres em Angola.
AngoNoticias: Angola Também produz Diamantes. Até que ponto este sector contribui para o crescimento da nossa economia.
FVL: Os Diamantes contribuem muito pouco para o crescimento da nossa economia em relação ao sector petrolífero. Os petróleos actualmente em termos de exportação chegam a 92,7% e os Diamantes apenas perfazem 4,7%. E também o petróleo está mais centralizado, a parte que fica com o Estado e uma boa parte que vai para o exterior, enquanto que os interesses privados nos diamantes ainda são maiores. E eu tenho dúvidas se, se consegue tirar dos diamantes os impostos que nós como angolanos poderíamos tirar. Há interesses privados ligados aos agentes da própria governação.
AngoNoticias: Isso significa que não há clareza na exploração dos Diamantes?
FVL: É prova que não há clareza em torno deste sector por um lado, por outro lado também Angola não transforma, não faz a lapidação dos diamantes, há projectos neste sentido e, portanto, vendemos ainda diamantes em bruto. Nós continuamos um pais de extracção no sector mineiro. Apesar de sermos um pais que produz para cima de um bilhão de barris de petróleo por dia, a nossa energia em termos de produto interno bruto não chega sequer 1,2%, é quase zero porcento, isto porque a energia não é aplicada na indústria, não é aplicada na agricultura nem em termos domésticos. O exemplo claro é a cidade de Menongue que está praticamente nas escuras, para mostrar que não transformamos a matéria-prima que temos internamente.
AngoNoticias: Tem uma sugestão sobre o que podia ser feito para essas riquezas servirem os angolanos todos?
FVL: A questão decisiva está no poder politico. É o poder politico que organiza o pais para que se aproveite as grandes capacidades e as potencialidades dos angolanos. Hoje o poder politico é um poder que serve a si próprio, portanto é um poder que vê Angola à dimensão do seu próprio grupo e não vê Angola na dimensão dos seus habitantes ou na dimensão do seu povo. É importante e necessário mudar a natureza desse poder politico, e eu penso que o poder politico actual não tem capacidade para nenhum projecto de transformação. Nunca estamos a ver quando é que eles consideram que já criaram o seu grupo, já têm suficiente riqueza, para então começarem a se ocupar dos problemas nacionais. Se tiverem no centro as preocupações do homem angolano, com certeza que vamos ter capacidade de transformar deste imenso potencial natural em riqueza para todos os angolanos. Isto é possível.
AngoNoticias: Há uma comparação possível do crescimento económico de todas as Províncias no mesmo nível?
FVL: De maneira nenhuma. Em primeiro lugar há uma grande disparidade entre Luanda e qualquer uma das outras Províncias. Há Províncias que têm maior progresso e maior atenção como Benguela, Huila, há outras que têm media atenção como é o caso do Bié, e há Províncias que estão praticamente abandonadas de que o Kuando-Kubango faz parte infelizmente. Dum modo geral as Províncias continuam com poucos recursos, continuam também com uma péssima gestão, têm na sua generalidade recursos humanos insuficientes dum lado e doutro com qualidade inferior aquilo que são as necessidades que temos que enfrentar neste momento, portanto, as Províncias não têm tidograndes progressos, embora tenhamos uma situação positiva que é a paz nopais. Não se pode compreender que não haja energia eléctrica nas capitais Provinciais, há um conjunto de preocupações que a sociedade enfrenta numa altura em que os governantes estão preocupados com as propriedades pessoais; as políticas são todas inadequadas e não estão viradas para o crescimento e para o desenvolvimento económico. Não há também um aproveitamento de capacidades humanas internas; há muitos técnicos que se encontram desempregados até mesmo na Província do Kuando-Kubango onde o Hospital Provincial só conta com 7 Médicos.
AngoNoticias: À que se deve esta disparidade?
FVL: É simplesmente fruto de uma politica anti-popular, uma politica de desprezo pela própria populações, fruto de uma politica que não é capaz de conjugar todos os esforços nacionais. É fruto de uma politica de descriminação em que se o quadro não é militante do Partido no poder também não é aproveitado, e o resultado disso é a persistência no subdesenvolvimento. Se não existir uma mudança radical vamos continuar assim. Há uma má gestão visível à todos os níveis mas também há um desprezo para aqueles que podia dar o seu contributo. O governo não tem sido capaz de reunir as cabeças, porque o governo não quer ser transparente devido as práticas de politicas de favoritismo que é um desaire para o desenvolvimento de Angola.
AngoNoticias: Que ideias chegou de colher durante a conferência destinada a construção de paz e prevenção de conflitos no Kuando-Kubango?
FVL: Varias ideias. A primeira é que ao nível local há uma queixa muito clara relativamente ao poder central. Há projectos que se deveriam desenvolver e que estão consignados no Orçamento Geral do Estado, que diz respeito ao poder central, nomeadamente os projectos ligados a energia e águas e também reabilitação de estradas, mas que o governo central não os realiza. Em segundo lugar apercebe-se que a maquina do Estado aqui não está afinada; os gestores não têm conhecimento de um conjunto de leis, dos métodos e procedimentos da própria governação. Constatei que há um conjunto de informações que aparentemente não chegam no Kuando Kubango e ainda se nota a partidarização de algumas estruturas estatais, portanto o estado não consegue ter uma relação directa governo-cidadão, há aqui também problemas políticos profundos sobretudo do ponto de vista democracia. Não há uma abertura politica clara, não há um dialogo permanente entre os vários partidos políticos, a comunicação social é do estado e não se preocupa em dar um impulso a situação em causa, nem promove debates inter-partidários com várias sensibilidades, para dizer que está num sistema fechado que aparentemente quer continuar a viver com as situações péssimas deixadas pela guerra, mas também noto que os debates que promovemos através da ANDA e outros que podem ser promovidos podem eventualmente ajudar a inverter um pouco esta situação. Há vontade das pessoas de aprender um pouco mais, notei isso e só falta um instrumento.
AngoNoticias: Que métodos faltam adoptar para superar estas dificuldades?
FVL: Há programas de curto prazo que têm de ser implementados com urgência. Esclarecer as populações, o conceito de democracia. Na democracia há recursos porque as pessoas vão ao debate de situações críticas. Não há situações que possam ser resolvidas de forma mágica. Para isso é necessário empregar recursos humanos e materiais a altura. Se o potencial económico desta região é a agricultura por exemplo, então que se crie mecanismos de investimento neste sector, elaborar um plano director desta província, ter uma politica que possa atrair quadros naturais ou não para esta região, investir na formação do homem com capacidade de dar um contributo para o desenvolvimento. Mas também é necessária a criação de condições para a acomodação desses meios humanos.
AngoNoticias: O Pais prepara-se para a realização de eleições. Que analise se lhe oferece fazer neste período?
FVL: As eleições são de importância vital para o desenvolvimento democrático. Não podemos continuar num pais que não tem nenhuma normalidade democrática, num pais que não tem representantes legais, é uma situação naturalmente ditatorial. Há uma grande controvérsia no sector político, onde nem todos estão preparados para as eleições. O povo de uma forma geral está preparado. Há sectores que pensam que as eleições podem provocar uma mudança capaz de afectar a sua vida, enfim há muitas leituras neste aspecto. A verdade é que todos nós podemos beneficiar na democracia. A democracia conta cabeças e não corta as cabeças como tem sido habito aqui nosso país. Mesmo que a gente faça as eleições com alguns erros, com algumas insuficiências e irregularidades é sempre melhor faze-las de forma a aperfeiçoarmos o nosso sistema porque isso poderá nos valer um grande avanço. Para isso é importante apelar sempre para um diálogo permanente, fazer esforços para o desanuviamento da situação. Não devemos projectar só a educação para as eleições, por mim, devemos ter também educação para a cidadania. Há grandes diferenças entre nós, mas esses sectores que ainda estão recuados não podem fazer recuar a historia toda, a historias tem de avançar.
AngoNoticias: O pacote eleitoral é ideal para a democracia que se pretende em Angola?
FVL: Com certeza não. Ainda não é o melhor para a nossa situação concreta. Temos uma CNE ainda partidarizada e no nosso caso, a condição de Partido – Governo e estado ao mesmo tempo não oferece confiança aos políticos. O ideal era termos uma CNE apartidária como aconteceu na Guine Bissau onde entidades da sociedade civil assumiu posições politicas para ajudar o próprio processo político. Eu pessoalmente não acredito que apenas os partidos políticos têm a solução dos problemas de Angola. Esta é a questão fundamental do pacote eleitoral. Outra questão que se coloca é que até aqui não foi aprovada a lei de direito de antena e isto é para não dar aos partidos políticos a possibilidade de maneira autónoma de dar a sua mensagem ao povo. Há aqui uma estratégia do partido no poder que acaba por contrariar os princípios de democracia. Apesar dessas deficiências a opinião pública esta atenta, o povo angolano quer progredir, vamos todos às eleições e acreditamos que vamos reverter a situação.
AngoNoticias: Que leitura faz sobre o processo de reconciliação nacional?
FVL: Tivemos desde 2002 um processo de paz militar, estamos a ter agora uma tentativa de ter uma paz civil, ainda há problemas muito graves de intolerância política. A reconciliação não chegou de resolver os problemas que dizem respeito ao Partido-estado. Quando falamos de reconciliação estamos a dizer que destruímos ou queremos destruir o regime de partido único que foi fonte de muitos conflitos e descriminação e que podíamos ter agora uma relação clara Estado-Cidadão e isto ainda não existe, temos um estado com muita descriminação. O maior problema é que não houve um plano global de reconciliação nacional; nem todas as forças políticas e sociais fizeram um compromisso mútuo de virarmos uma pagina dolorosa do nosso pais, não só por causa da guerra mas também com a falta de democracia, com a ditadura que nós todos sofremos, com a falta de oportunidades para a grande maioria dos cidadãos e por isso este processo de reconciliação está a ser muito lento, muitas vezes calculista, outras vezes sem boa vontade, os ventos de intolerância política que temos vindo a assistir a exemplo do que se passa no Kuando-Kubango ferem muito o processo de reconciliação. A reconciliação caminha não da maneira que queríamos, mas constata-se, entretanto, uma vontade de fazer a paz para não voltar à guerra. Também devo dizer que ainda não existe um plano global de desarmamento da população civil e isso cria receios.
A situação de Mavinga e uma grande referência, tentou-se resolver duma maneira bilateral mas não foi suficiente, enfim todas essas coisas influenciam a crise que o processo de reconciliação nacional observa. Nós vemos que um dirigente da UNITA que tenha que sair de Menongue para um município precisa de levar uma guia de marcha, isto é um perfeito absurdo do ponto de vista da democracia, da liberdade política, isso não faz sentido absolutamente nenhum e mostra que há uma reserva em termos de uma verdadeira reconciliação nacional.
AngoNoticias: Que opiniões chegou de colher dos quadros do Kuando-Kubango durante os debates?
FVL: De princípio foi uma grande oportunidade de entrar em contacto com os Quadros desta Província, governantes, líderes de partidos políticos, das Igrejas e da sociedade civil, nos transmitiram ideias sobre o Kuando-Kubango e também conseguimos sentir o pulsar das pessoas. Constatamos uma grande vontade de aprender, embora tenhamos verificado também um certo receio por parte dos quadros, sobretudo no tema sobre a reconciliação nacional, mas precisamos de encorajar as pessoas para os debates sobre questões nacionais para se evitar os problemas de Mavinga e de outras localidades de Angola. É importante preparar as populações para começarem a rejeitar os discursos de certos políticos intolerantes que não querem a democracia em Angola, discursos ultrapassados comparáveis com o tempo de nonopartidarismo, é preciso despertar as populações para uma paz verdadeira baseada no respeito pela constituição, na convivência pacífica na base de diferenças e num regime multipartidário.
AngoNoticias: A Frente para a Democracia tem um programa para a sua representação no Kuando-Kubango?
FVL: No nosso plano consta a constituição de uma representação aqui no Kuando-Kubango, já que tínhamos alguns militantes no passado. Por causa da guerra que houve esses militantes têm um paradeiro incerto, por isso temos de começar o trabalho de novo, há sectores que acreditam na nossa linha politica. Daqui para frente teremos uma aproximação de trabalho, já que a FPD tem uma abertura total para o diálogo nacional, na implementação da democracia, pensamos que podemos dar a nossa contribuição para a reconciliação nacional e também para o desenvolvimento do Pais. Nós queremos um diálogo nacional e não bipartidário. Portanto, com a minha visita nesta Província esperamos colher os frutos necessários, sobretudo a implantação da FPD.
AngoNoticias: Em quantas Províncias está representada a FPD?
FVL: Temos militantes e representações em quase todo o Pais com a excepção do Kuando-Kubango e Cunene.
Cometários: Como o sr. "webmaster" do AngoNotícias discriminadamente me interditou de fazer comentários e como este assunto é importante, actual e pertinente em relação ao que se passa actualmente em Angola, não tivemos outra solução senão copiá-lo e reproduzi-lo na íntegra tal como está no site. A isso fomos obrigados bem a  contragosto e voltaremos a fazê-lo enquanto a actual situação se mantiver e quando o acharmos conveniente mas, como é óbvio, indicando sempre a fonte como manda a ética na Net e respeitando o Copyrigth. Além disso, cremos que neste site tem maior projecção internacional.
Nota: Damos toda a razão ao articulista sr. dr. Filomeno Vieira Lopes porque o que escreveu e por demais pertinente.

Os últimos dias de Savimbi



Chamada fatal para Savimbi
Um telefonema para Lisboa terá traído o líder da UNITA

Uma comunicação telefónica para Lisboa feita por Jonas Savimbi a partir da mata do Moxico, pode ter sido fatal para o líder histórico da UNITA, revela esta terça-feira o Diário de Notícias. Savimbi terá feito essa chamada no dia 13.
Na véspera da sua morte, a 21 de Fevereiro, aquele diário garante que um elemento de uma coluna militar da UNITA – que na altura estaria a 70 quilómetros da zona onde Savimbi se movimentava – fez um telefonema para Paris.
O telefonema feito para Lisboa terá traído o velho guerrilheiro, facilitando que a sua posição fosse referenciada.
Em telegrama datado de Luanda, a Lusa citava, na segunda-feira, uma fonte governamental dando a informação de que «terá sido por causa de uma comunicação para o exterior feita na passada sexta-feira (dia 22) que o ponto onde Savimbi se encontrava foi determinado».
DN.jpg (3296 bytes) 7 de Maio de 2008
Os últimos dias de Jonas Savimbi na versão de quem o acompanhou
por: Armando Rafael - 28 Setembro 2006
Relato dos últimos dias de vida de Jonas Savimbi, denúncia de uma traição ou mero ajuste de contas? Qual destas características se adequa melhor para descrever o livro - Memórias de um Guerilheiro - que o actual líder parlamentar da UNITA, Alcides Sakala, lança hoje à tarde na Fundação Mário Soares, em Lisboa?
São três anos e meio de memórias, que se iniciam em Dezembro de 1998 e que terminam em Março de 2002, quando representantes do Governo de Angola e da UNITA decidiram pôr termo a quase três décadas de guerra no país, dias depois da morte de Jonas Savimbi.
"Fizemos da morte em combate do Presidente Savimbi uma oportunidade para a paz", escreve Alcides Sakala, que fez parte da coluna que acompanhou o líder da UNITA nesta espécie de recriação da "longa marcha" que a guerrilha percorreu após a Independência, em 1975. Só que desta vez, havia uma diferença substancial: em vez da Jamba, esperava-os uma decisão. Que fazer?
"A UNITA poderia ter continuado a luta da resistência, talvez (...) na província do Moxico ou em circunstância mais difíceis (...) nas províncias de Kuanza-Sul e de Benguela. Contudo, resistiríamos por mais quanto tempo, com a carga de sanções a pesarem nossas costas, num mundo em mudança?"
Perseguidos, com fome e, sobretudo, já exaustos, como se depreende pelo relato, minucioso, que o então responsável pelas relações internacionais da UNITA foi fazendo ao longo desses três anos e meio, que mais poderiam fazer os seus responsáveis do que aceitar o acordo que Luanda lhes propôs?
Especialmente quando a UNITA (leia-se o general Altino Sapalalo Bock) cometera o erro de atacar o Kuíto em 1998, sofrendo ali uma derrota que Savimbi tinha antecipado e que os deixou sem retaguarda perante a contra-ofensiva das Forças Armadas Angolanas.
Será que isto explica as traições e as conspirações a que alude Alcides Sakala nas suas Memórias de um Guerrilheiro, e que, em sua opinião, explicam a morte de Jonas Savimbi?
Curiosamente esta é a parte em que o "diplomata" Alcides Sakala mais se resguarda, realçando que não presenciou a morte de Savimbi e que tudo o que sabe lhe foi revelado por terceiros. Subtileza que não o impede, no entanto, de aludir a outros episódios, eventualmente só perceptíveis por quem está a par da história da UNITA.
Senão como explicar, por exemplo, esta passagem: "não tivesse sido a traição de alguns dos seus homens de confiança, que forjou e formou desde a fundação da UNITA (...) [e] Jonas Savimbi nunca teria sido morto pelos soldados das FAA".
Será que foi?
Ou, então, como explicar, que a direcção política da UNITA tenha sido surpreendida dias depois, como Alcides Sakala deixa perceber, pelos acordos que os militares da organização estavam prestes a firmar?
Detalhes de uma história que se vai fazendo. Com livros destes.

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